O campesinato contemporâneo como modo de produção e como classe social

Horacio Martins de Carvalho
segunda-feira 2 de abril de 2012 por LRAN

Prólogo

Os camponeses têm sofrido perseguições políticas e sociais, opressões ideológicas e religiosas e formas diversas de exploração econômica. É difícil se encontrar um período da história humana, história essa onde sempre estiveram presentes os camponeses nas suas mais variadas formas de organização social e de se relacionar com a natureza, sem que o tratamento dispensado aos camponeses não fosse rebuçado pelo desdém e pela humilhação.

Nas formações econômicas e sociais dominadas-hegemonizadas pelo modo de produção capitalista têm predominado o desprezo e a discriminação social com relação aos camponeses.

Mesmo que a população urbana dependa da produção de alimentos e das matérias-primas provenientes da agricultura, e que a maior parte desses produtos seja originado das práticas de produção dos camponeses, eles têm sido percebidos, pelas mais distintas razões e preconceitos, tanto pelos latifundiários, pelos capitalistas da grande empresa no campo, assim como pela maioria da população urbana, como os pobres da terra ou, numa expressão mais pertinente de Fanon ao se referir aos povos negros e colonizados na África, como os “condenados da terra”.

Referindo-se ‘ao homem da enxada’ no século XIV, Jacob (2003) Jacob, Heinrich Eduard (2003). Seis mil anos de Pão. A civilização humana através de seu principal alimento. São Paulo, Nova Alexandria. p. 239. afirmou que “O desprezo e a desconsideração pelos camponeses permanecerão durante vários séculos ainda como um dos traços mais característicos da mentalidade ocidental. Por muito diferentes que sejam as formas de vida social de povos como os ingleses, os franceses, os italianos, os alemães ou os polacos, aquilo que não muda de uns para os outros é precisamente o desprezo por quem cultiva o cereal que há de ser transformado em pão (...)”.

Os camponeses, na maior parte das regiões do mundo, têm sabido sobreviver a essas ações desagregadoras e discriminatórias que são estimuladas pela concepção de mundo capitalista e colonial, e era intrínseca à concepção de mundo feudal quando os camponeses eram servos da gleba. Ainda assim, é necessário se ressaltar que, no caso particular do Brasil, somado a essas ações contra os camponeses se deve considerar o preconceito cristalizado na subjetividade das classes dominantes pelos resquícios ativos da mentalidade escravista e racista (negro e índio), reforçada pelo desprezo dos trabalhadores manuais e pobres, subjetividade essa que construiu uma concepção de mundo e prática social dominantes de discriminação social dos camponeses que se espraia ideologicamente como senso comum.

Para resistir e superar essa concepção de mundo das classes dominantes no Brasil de discriminação social dos camponeses, associada à tendência intrínseca do capital, na dinâmica da sua reprodução ampliada, de eliminar ou submeter todos os demais modos e formas de produção aos seus interesses de classe social, inclusive homogeneizando o universo geral da produção sob o padrão reprodutivo capitalista, o campesinato necessita mais do que nunca de se construir politicamente e se comportar como classe social em contradição inconciliável com o capital.

É sobre essa reflexão, num questionamento persistente e continuado, que este documento foi elaborado. O elemento central é a reflexão sobre as hipóteses de se apreciar o campesinato contemporâneo no Brasil como modo de produção e como classe social, sem necessariamente abordar essas duas categorias, ainda que distintas, como excludentes entre si.


Documentos anexados

2 de abril de 2012
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