Lia Pinheiro Barbosa, Peter Michael Rosset

Movimentos sociais e educação do campo na américa latina

Aprendizagens de um percurso histórico
segunda-feira 6 de novembro de 2017 por LRAN

O Brasil tem sido emblemático no debate político da Educação do Campo, uma luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e das organizações da Via Campesina Brasil, e que articula a reivindicação da democratização do acesso à educação para os povos do campo no marco das políticas públicas. Para o caso brasileiro, foram fundamentais as conquistas no campo jurídico e das políticas públicas, como as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do
Campo, o PRONERA e a Política Nacional de Educação do Campo, sobretudo por romper com o histórico latifúndio do saber e do conhecimento, consolidado no Brasil. Neste artigo destacamos que o projeto educativo-político da Educação do Campo ultrapassou as fronteiras locais e nacionais, estabelecendo pontes de diálogo e aprendizagens com outras organizações e movimentos sociais do campo na América Latina, em particular com a Via Campesina / Coordenadora Latino-Americana de
Organizações do Campo (LVC/CLOC). O presente artigo pretende delinear algumas destas aprendizagens da Educação do Campo em perspectiva latino-americana, no intuito de destacar seu papel na consolidação de um Paradigma Epistêmico do Campo e de uma Pedagogia Camponesa Agroecológica.

Palavras-chaves: Educação do campo. Paradigma epistêmico do campo. Pedagogia camponesa agroecológica.

A modo de introdução

O presente escrito tem por objetivo apresentar as ressonâncias educativas, pedagógicas e políticas da Educação do Campo em perspectiva latino-americana. Para tanto, partimos das seguintes afirmações: a emergência do conceito e do projeto político da Educação do Campo constitui um aporte fundamental dos movimentos sociais do campo no Brasil, em particular do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina Brasil, na luta empreendida pelo direito à educação, uma luta comum para outros movimentos sociais e organizações do campo da América Latina.

Por ser uma luta comum, a Educação do Campo é apropriada no âmbito dos movimentos sociais do campo na região e tem propiciado aprendizagens comuns, sobretudo na condução de experiências pedagógicas alternativas, erigidas no contexto da luta agrária latino-americana. Tais experiências forjam um processo formativo da identidade política do sujeito histórico e o fortalecimento da unidade da luta camponesa no campo. A terceira afirmativa consiste em que a Educação do Campo como conceito e projeto educativo-político abre caminho para a defesa de um Paradigma Epistêmico do Campo (BARBOSA, 2015b, 2016b) na América Latina, alicerçado numa elaboração teórica advinda da práxis política dos próprios movimentos sociais do campo, um processo indissociável do real concreto das lutas históricas travadas pelo campesinato da região. A Educação do Campo apresenta um acúmulo histórico para além das experiências educativas articuladas nos assentamentos e acampamentos do MST e da Política Nacional de Educação do Campo. Tal acúmulo reflete a transcendência territorial do projeto educativo-político da Educação do Campo, sobretudo ao aportar às experiências educativas impulsadas
por outros movimentos e organizações atuantes no campo latino-americano.

Portanto, buscaremos apresentar algumas aprendizagens desse percurso histórico, sobretudo na perspectiva da internacionalização das lutas, que encontra seu correlato na incidência política da Educação do Campo entre as organizações da Coordenadora LatinoAmericana de Organizações do Campo (CLOC) e da Via Campesina (LVC). O amanhecer da caminhada da longa noite... e a educação que desponta como sol Já nos dizia José Martí (1973, p. 302) que “lo pasado es la raíz de lo presente. Ha de saberse lo que fue, porque lo que fue está en lo que es”. A frase é muito oportuna para refletir sobre o calendário histórico de 2017, ano que traz à memória da resistência internacional e, em particular, da latino-americana e caribenha, fatos históricos e lutadores sociais cujo legado fortalece e revigora a luta pela emancipação humana: o centenário da Revolução Soviética de 1917 e os 80, 50 e 20 anos da ausência física, porém da vitalidade da teoria social crítica de Antonio Gramsci, Ernesto Che Guevara e Paulo Freire, respectivamente.

No crisol da história política da região, estes são marcos que expressam a trajetória da luta de classes no século XX, ao mesmo tempo em que incorpora em nossa especificidade continental a resistência permanente e incansável da longa noite dos 500 anos ou, diríamos nós a propósito de uma atualização temporal, dos 525 anos de colonização e expropriação territorial, cultural e política que atravessa nossa formação histórica como América Latina e Caribe. Na transição de séculos, a caminhada do chão da noite fez caminhar a palavra das lutas passadas, insumos para as que se travam em nossa atualidade e no horizonte utópico de construção de outros mundos no enfrentamento da hidra capitalista, com dignidade, justiça e liberdade.

É nesse contexto que se perfilavam outras datas fundacionais para a continuidade da luta, especialmente aquela articulada pelos movimentos sociais do campo, camponeses e indígenas. Tal é o caso do surgimento do MST, em 1984, no Brasil. Na denúncia do significado histórico e político-econômico do latifúndio da terra e da questão agrária, o MST amplia a concepção da Reforma Agrária ao imprimir-lhe um sentido político para além da desapropriação das terras improdutivas, incorporando a ela a perspectiva da ruptura de todas as cercas que privam os povos do campo do acesso aos direitos, entre eles, o direito à educação.

A negação histórica dos direitos é um rastro gilvaz dos processos de colonização da América Latina e do Caribe. E a refuta institucional do direito a educar-se aos povos indígenas, afrodescendentes e camponeses - sujeitos que herdam na pele, no pensamento e no coração o peso da longa noite - evidencia um problema histórico nevrálgico na configuração das contradições de classe em nossa região. Não é à toa que a reivindicação do direito à educação política presente nas nascentes repúblicas e na base da ilustração latino-americana, que encontra nos escritos de Simón Rodríguez, José Martí, Nísia Floresta, Joaquim Nabuco e José Carlos Mariátegui, para citar alguns, a tônica do papel político que se deve imprimir à educação reivindicada pelos sujeitos subalternos.


titre documents joints

6 de novembro de 2017
info document : PDF
249 KB

Página inicial | Contato | Mapa do site | | icone statistiques visites | info visites 953911

Acompanhar a vida do site pt_br  Acompanhar a vida do site AÇÃO TERRA  Acompanhar a vida do site Movimentos Socias   ?

Site realizado com SPIP 3.0.20 + AHUNTSIC

Creative Commons License