uma análise das políticas de formação da Via Campesina América do Sul

Consciência e territorialização contra-hegemônica

Andréa Francine
segunda-feira 15 de maio de 2017 por LRAN

O presente livro é fruto de uma investigação de mestrado realizada no
programa de pós-graduação em Geografia da Unesp, campus de Presidente
Prudente, no período de 2011 a 2013.

Apresentação

O tema deste trabalho − a saber, a formação política em organizações sociais do campo − advém de nossa prática militante de acompanhamento e coordenação desses processos, os quais possibilitaram em grande medida as inquietações, indagações e reflexões que se expressam no corpo deste trabalho. Partindo dessa prática reflexiva, a necessidade de aprofundamento teórico tornava-se cada vez mais provocante e desafiadora. Essa investigação se fundamenta sobre essa práxis. O objetivo central da pesquisa foi analisar a política de formação da Via Campesina Internacional por meio das experiências concretas construídas na América do Sul e considerando essas experiências como parte de um processo de territorialização contra-hegemônica do capital, que se efetiva por meio da luta promovida pela organização dos diferentes sujeitos do campo.

Esse processo envolve, sem dúvida nenhuma, o terreno da consciência
e da ideologia, o que muitos autores designam como território imaterial,
como será desenvolvido nos capítulos que seguem.

No Capítulo 1, intitulado "Territorialização do capital no campo na
América do Sul", apontamos elementos do desenvolvimento da produção
capitalista no campo nos últimos anos, consequências da política neoliberal
na região sul-americana.

Nesse capítulo, analisamos aspectos do agronegocio, , do hidronegócio, da mineração e desmatamento relacionados a megaprojetos de infraestrutura para circulação de mercadorias, forjando um domínio hegemônico do capital no campo em tempos de sua própria crise estrutural. Também apontamos algumas das principais consequências que essa hegemonia provoca como a desterritorialização dos sujeitos do campo, seja na forma de expropriação, exploração ou subsunção deles à ordem estabelecida.

No Capítulo 2, situamos historicamente o surgimento da articulação internacional de organizações do campo, a Via Campesina Internacional, e a partir de suas linhas políticas, organização e estratégia, analisamos os processos de resistência e construção de uma territorialização contra hegemonia do capital no campo. Pretendemos evidenciar a existência e o contraste entre dois projetos para o campo. Um deles, nos marcos do desenvolvimento do capital e da produção inconsequente de mercadorias a partir da exploração dos trabalhadores do campo e da subsunção de camponeses, indígenas e afrodescendentes às suas leis (Capítulo 1). Outro, proveniente das contradições e consequências do próprio sistema, no qual os trabalhadores e trabalhadoras organizados propõem um novo modelo para o campo
baseado na soberania alimentar e na agroecologia.

No Capítulo 3, com o nome "Políticas de formação da Via Campesina na América do Sul", retratamos a sistematização das experiências de formação organizadas pela Via Campesina América do Sul em sua trajetória de vinte anos de existência. Buscamos, através de um mapeamento inicial, traçar elementos políticopedagógicos singulares que perpassam essas experiências, identificando assim aspectos da política de formação da VCI. Esse mapeamento foi realizado pela identificação das experiências e do agrupamento delas por características similares, mesmo que a denominação desses agrupamentos não seja utilizada pela VCI. São eles: cursos livres ou informais e atividades de formação política; cursos livres ou informais e atividades de formação político-profissional; escolas e institutos de formação político-profissional em agroecologia. Para a exposição desse capítulo, partimos do pressuposto de que as políticas de formação da VCI fazem parte da sua estratégia na construção de uma territorialização contra a hegemonia do capital.

O Capítulo 4 deste trabalho é denominado "Territorialização, organização e consciência". Nesse capítulo, discutimos os conceitos de território, territorialização e territorialidade como conceitos geográficos que perpas sam pela análise do objeto de investigação, ou seja, a construção hegemônica do capital no campo versus a luta contra-hegemônica da Via Campesina na América do Sul. Também nesse capítulo, abordamos conceitos, como a concepção de Antonio Gramsci sobre: Estado e sociedade civil; hegemonia; organização política como intelectual coletivo; formação política e intelectual orgânico. Esses conceitos aportam para uma leitura crítica dessa luta contra-hegemônica do capital no campo realizada pela Via Campesina Internacional desde o enfrentamento, a organização e a formação.

O Capítulo 5 relaciona os aspectos da luta e da organização às políticas de formação da VC como aspectos chaves na construção da consciência de classe, pressuposto limiar do avanço para uma luta por mudanças estruturais. Nas Considerações Finais desta obra, apontamos de maneira sintética as principais reflexões a respeito do papel das políticas de formação da VC enquanto elemento estratégico para a luta contra a hegemonia do capital e suas consequências para os sujeitos coletivos do campo.

Assinalamos também nessa parte do trabalho algumas inquietações que necessitam ser aprofundadas, as quais seriam bases para outras possíveis investigações. Desde o primeiro momento da realização deste trabalho, desenvolvemos a expectativa de que pudesse aportar, de alguma maneira, para a práxis coletiva da Via Campesina Internacional e seu papel histórico na luta de
classes.

Compreendemos, entretanto, que ele é insuficiente para uma leitura crítica de todo o seu processo, dados os desafios que lhe são colocados. Nesse sentido, deixamos este breve estudo para a crítica da história.


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11 de junho de 2017
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