Levando em conta algumas idéias e pequenas coisas

O CAMPONÊS, GUARDIÃO DA AGROBIODIVERSIDADE

Horacio Martins de Carvalho
quinta-feira 24 de janeiro de 2013 por LRAN

Curitiba, janeiro de 2013

A questão camponesa pode ser considerada como uma temática fundamental no universo social do mundo contemporâneo, por três motivos:

  • pelo reconhecimento mundial da sua importância e presença, tais como: a Assembléia Geral da ONU declarou 2014 o Ano Internacional da Agricultura Familiar; os camponeses estão presentes nas diversas regiões do mundo alcançando aproximadamente um terço (1/3) de toda a humanidade; e são os camponeses os responsáveis pela produção de alimentos para todos os povos do mundo,
  • pela sua práxis produtiva altamente integrada com a natureza os camponeses têm sido --- assim como os povos originários (indígenas), os extrativistas, os pescadores artesanais ao mesmo tempo agricultores e extrativistas, os quilombolas, entre outros --- os guardiões da agrobiodiversidade num contexto histórico em que as classes dominantes e a privatização dos saberes impõem a artificialização da agricultura,
  • e porque será na dinâmica reprodutiva da unidade de produção camponesa, seja ela individual, coletiva, comunitária ou outras formas que a imensa diversidade das experiências históricas dos povos camponeses em todo o mundo têm experimentado, que se poderá encontrar a maior parte das respostas para superar a unidade de produção capitalista no campo.

Apesar da sua importância na história contemporânea da humanidade, os camponeses contemporâneos são considerados pelas classes dominantes como cidadãos de segunda categoria. São rotulados como os pobres do campo. Portanto e supostamente, diferentes dos empresários capitalistas do agronegócio, estes sim reputados como os responsáveis pelo incremento da agricultura nacional, quiçá os ‘heróis nacionais’.

Essa discriminação dos camponeses pelas classes dominantes do país e por parcela da intelectualidade considerada conjunturalmente como de centro-esquerda é reforçada hodiernamente não apenas pela forte presença dos negócios capitalistas no campo como, também, por “algumas idéias e pequenas coisas”.

Articuladas entre si e encimadas pela postura político-ideológica mais geral da discriminação de classe da burguesia contribuem fortemente para reforçar a onda ideológica dominante formadora da opinião da maioria da população no sentido de disseminar preconceitos contra os camponeses.

Essas “algumas idéias e pequenas coisas” adiante arroladas é parte dos valores da cultura liberal-burguesa dominante que são incorporados inconscientemente na eclética concepção de mundo camponesa e contrários à práxis camponesa contemporânea na maior parte das regiões do país e do mundo. Entre esses valores e práticas ideológicas dominantes destaco e aqui examino as seguintes:

  • o imediatismo e a artificialização como negação da práxis camponesa,
  • a espoliação dos recursos naturais como progresso,
  • a indução burguesa à desagregação camponesa,
  • a resistência social camponesa à pressão dominante para a homogeneização capitalista no campo.

Explicitar e desenvolver essas “algumas idéias e pequenas coisas”, aqui consideradas como resultantes da dominação da lógica capitalista sobre uma concepção de mundo que afirmaria o campesinato como modo de produção e como classe social , constituiria, no meu entender, um passo a mais na compreensão das dificuldades da reprodução social do campesinato nas formações econômicas e sociais capitalistas.

E, ao mesmo tempo, proporcionaria elementos para ampliar político e ideologicamente a resistência social camponesa aos diversos tipos de pressões das empresas capitalistas no campo.

Não resta dúvida alguma que os camponeses ‘lutam contra a corrente’ da concepção de mundo hegemônica, esta reforçada pelas políticas públicas que ensaiam ajustar a reprodução social camponesa aos interesses de classe da burguesia agroindustrial, nacional e estrangeira.

Ainda assim, mesmo pressionados econômica, política e ideologicamente para se inserirem na lógica capitalista de produzir, a maioria dos camponeses reafirma seu modo de ser, de viver e de produzir distinto daquela do capitalismo. E, apesar das circunstâncias altamente desfavoráveis aos camponeses, é possível se considerar que os camponeses contemporâneos são os guardiões da agrobiodiversidade.

A presença da agrobiodiversidade nas práticas camponesas se constata não apenas ao se considerar os sistemas de produção das unidades de produção camponesas isoladamente, mas, sobretudo, ao se levar em consideração a totalidade dessas unidades de produção no país e no mundo.

Minha sugestão é de que os campesinatos se comportam como sujeitos plurais guardiões da agrobiodiversidade e apresentam posturas econômicas, políticas e ideológicas contrárias à artificialização da agricultura. É somente por pressão das empresas capitalistas relacionadas com o agronegócio, pressão essa reforçada pelas políticas públicas, que os camponeses tendem a se comportarem tal qual uma pequena burguesia agrária, quando então estabelecem uma relação homem-natureza de caráter espoliativa.

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24 de janeiro de 2013
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