Diário: Terceiro dia

domingo 22 de abril de 2007 por LRAN

19 de abril 2007: Chuva, Chuva e mais Chuva: assim foi o terceiro dia da "Brigada da Reforma Agrária" na
Mata Norte de Pernambuco.

Nenhum brigadista reclamou pois:

chuva = fartura
chuva = milho a bonecar
chuva = alegria
... alegria de andar na chuva e comunicar a boa nova da Reforma

Agrária ao povo dos
bairros periféricos da cidade de Vicência:

cidade do ex-governador, Jarbas
cidade da família Monteiro, usineira e ligada ao Trabalho Escravo
cidade onde o cortador de cana só lucra miséria e fome.
Andando pelas ruas, sem asfalto e com detritos humanos correndo ao ar livre, é difícil
compreender como a cana consegue enriquecer uns poucos às custas da desgraça da vida de
milhares de trabalhadores/as. Logo se percebe que a chave da compreensão está em
entender o modelo feudal, latifundiarista, que gera violência, muitas vezes com a
conivência do poder Judiciário (e também Legislativo e Executivo).

"Cana só gera riqueza para o rico", diz um ex-“gato” ou aliciador, que mora no bairro e
já mandou três filhos para trabalhar nas usinas de Minas Gerais, pois "aqui o emprego é
fraco".

A migração é comum na cidade. A Brigada conseguiu, com muita dificuldade, descobrir os
ônibus da empresa Itapemirim que saem da rodoviária de Vicência com canavieiros
disfarçados de turistas. Com certeza, a Delegacia Regional do Trabalho e o Ministério
Público do Trabalho não teriam dificuldade em fiscalizar o transporte clandestino de
trabalhadores.

No fim da tarde, nas ruas esburacadas, cada buraco vira uma "mini-fossa". Como
praticamente toda a população local está desempregada, pois é tempo de entresafra, a
prefeitura distribui sopa e pão. Logo a fila se forma: crianças, jovens e mulheres com
algum tipo de vasilha na mão. Esta é a “riqueza” gerada pela monocultura da cana.
Chega a noite e o povo larga a novela para assistir o filme "Bagaço". As crianças sentam
no chão e se divertem com a novidade. Homens e mulheres assistem atentamente imagens que
retratam sua própria realidade. Gesticulam pouco, revelando um silêncio concentrado, que
serve para destacar ainda mais os traços de sofrimento nos rostos. A maioria conhece o
duro trabalho nos canaviais desde os sete ou oito anos de idade. Quando termina o filme,
os olhares e comentários baixinhos revelam um sentimento de cumplicidade. Todos conhecem
essa história. Todas as vozes se juntam, porém, na hora de concordar que o filme
retratou bem a vida dos canavieiros - "e ainda falta falar muita coisa!". Os acampados e
assentados que integram a Brigada de Formação iniciam o debate e o consenso é claro: a
solução para mudar essa realidade é a Reforma Agrária – “partilhar a terra para
multiplicar o pão”.

Foram distribuídos panfletos e cartazes sobre a campanha “De olho Aberto para não Virar
Escravo” e também a cartilha “Os Efeitos Destrutivos da Indústria da Cana no Brasil”
(esta produzida em parceria com a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Grito dos
Excluídos e Serviço Pastoral dos Migrantes). Neste terceiro dia, a estimativa é que a
Brigada conversou com cerca de 1.500 pessoas na cidade de Vicência.

Mais Informações:

Comissão Pastoral da Terra – CPT PE (81) 32314445


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