Segundo dia: Diário da Brigada de Formação sobre os efeitos destrutivos da Indústria da Cana em Pernambuco

sexta-feira 20 de abril de 2007 por LRAN

18 de abril de 2007

O segundo destino da Brigada de Formação, formada por cerca de 50 acampados e assentados
da reforma agrária, foi a cidade de Condado, a 80 km do Recife. Apesar da forte
influência econômica e política do Grupo João Santos, um dos maiores latifundiários do
estado, essa região ainda mantém alguns posseiros e pequenos agricultores, que produzem
principalmente inhame e feijão. A pequena diversificação da produção é suficiente para
que se verifique um nível menor de pobreza na população local.

A Brigada de Formação se concentrou na periferia, no bairro de Novo Condado. Ali o que
se vê são ruas sem asfalto, com crianças descalças brincando entre esgotos, de onde vem
um mau cheiro que vai piorando com o forte calor do meio-dia. A maioria dos moradores
deste bairro é formada por cortadores de cana, que neste período de entre safra estão
desempregados. A população demonstrou grande interesse e receptividade em relação aos
temas discutidos com a Brigada.

Durante toda à tarde, foi feito uma reflexão com a comunidade sobre o processo de luta
pela terra na região. A população local lembra que esta luta tem sido sangrenta. No
final da década de 80, um dos principais líderes do movimento de posseiros que combatia
o domínio da monocultura da cana, conhecido como Cazuza, foi assassinado com 18 tiros
pelas costas. Pistoleiros ligados a João Santos foram absolvidos, sob alegação de que o
crime foi cometido em “legítima defesa”.

Trabalhadores mais idosos lembram que, na década de 70, foram encontradas cerca de 50
ossadas humanas no açude da usina Santa Teresa, que pertence ao Grupo João Santos. Eles
contam que era comum o assassinato de trabalhadores que apenas esperavam seu pagamento
no final da safra no corte da cana.

Em visita ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Condado, a Briga foi informada pelo
presidente do Sindicato, que muitos cortadores de cana tentaram a sorte nas usinas do
Maranhão. Porém, a maioria não consegue juntar dinheiro para retornar. Esta situação
deixa as chamadas “viúvas e órfãos de pais vivos”, que há mais de dois anos esperam
notícias de seus familiares.

Como parte da programação, à noite foi exibido o documentário “Bagaço”, seguido de um
debate com a população local no próprio bairro de Novo Condado, onde durante a tarde foi
feito o trabalho de base. Durante a exibição do filme, uma senhora emocionada comenta,
“essa é a história dos meus avós, dos meus pais e dos meus filhos!”. Para a população
visitada, a Brigada tem despertado o sentimento de que a luta pela reforma agrária é uma
alternativa contra a exploração dos usineiros.

Depois da exibição do filme, vários acampados e assentados contam suas histórias de
tristeza durante o período que trabalhavam no corte da cana e como sua vida mudou depois
que conquistaram a terra. Uma delas foi Dona Maria, hoje assentada em um antigo engenho.
Ela lembra do filho de 17 anos, que morreu no corte da cana, em conseqüência do trabalho
pesado que provocou o rompimento de diversas artérias.

Neste segundo dia foram distribuídos 1.000 panfletos, mostrando que para cada tonelada
de cana cortada, o trabalhador ganha R$3,00 e o usineiro ganha R$100,00. Também foram
distribuídos 300 calendários e 250 cartazes sobre a campanha, “De olho aberto para não
virar escravo”. A estimativa é que a Brigada conversou com mais de 2.000 pessoas.

Um dos principais objetivos é denunciar a mentira difundida pela propaganda do etanol
como energia “limpa”. A indústria da cana no Brasil está manchada pelo sangue de
milhares de trabalhadores.

Mais Informações:

Comissão Pastoral da Terra (CPT PE), Marluce Melo ou Plácido Júnior (81) 32314445.


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