Se quisermos salvar o planeta, precisamos de uma moratória de cinco anos para os biocombustíveis

Combustível produzido a partir de plantas estabelece uma competição por comida entre carros e pessoas. As pessoas – e o meio ambiente – vão perder.

George Monbiot tradução Lilia Azevedo, Rede Social
quinta-feira 5 de abril de 2007 por LRAN

Terça-feira, 27 de março 2007 - The Guardian

Costumava ser uma questão de boas intenções mal colocadas. Agora é uma clara fraude. Os governos que usam biocombustível para enfrentar o aquecimento global sabem que este irá causar mais dano do que bem.

Mas seguem em frente apesar disso. Na teoria, combustíveis
feitos a partir de plantas podem reduzir a quantidade de dióxido de carbono emitido por
carros e caminhões. As plantas enquanto crescem absorvem carbono – que é novamente
libertado quando o combustível é queimado. Ao incentivar as companhias de petróleo a
fazer a troca de plantas fósseis para plantas vivas, governos dos dois lados do
Atlântico alegam estar “descarbonizando” nossas redes de transporte.

Falando sobre o orçamento, na semana passada, Gordon Brown anunciou que iria estender a
redução de impostos sobre bio-combustíveis até 2010. A partir do ano que vem, todos os
fornecedores no Reino Unido terão que garantir que 2,5% do combustível que vendem seja
feito de plantas – do contrário vão ter que pagar uma multa de 15 centavos por litro. A
obrigação cresce para 5% em 2010. Até 2050, o governo espera que 33% de nosso
combustível virá de plantações. No mês passado, George Bush anunciou que iria
quintuplicar a meta dos EUA para biocombustíveis: até 2017 estes deverão estar
fornecendo 24% do combustível do país usado para transportes.

E então, o que está errado nesses programas? Apenas que são uma receita para um desastre
ambiental e humanitário. Em 2004 eu avisei, nestas páginas, que os biocombustíveis iriam
criar uma competição por comida entre carros e pessoas. As pessoas perderiam
forçosamente: as pessoas que têm condições de dirigir são mais ricas do que as que
correm risco de morrer de fome. Isso levaria também à destruição de florestas tropicais
e outros habitats importantes. Nunca recebi tantos xingos por causa de qualquer outro
artigo – exceto quando ataquei os que viam no onze de setembro uma
conspiração.Disseram-me que minhas alegações eram ridículas, risíveis, impossíveis. Bem,
num certo sentido eu estava errado. Acreditava que esses efeitos não surgiriam por
muitos anos. Eles já estão acontecendo.

Desde o começo do ano passado, o preço do milho dobrou. O trigo também alcançou o preço
mais alto dos últimos dez anos, enquanto que as reservas globais desses grãos atingiram
os índices mais baixos em 25 anos. No México já aconteceram motins por causa de comida e
há notícias de que os pobres estão sentindo a tensão em todo o mundo. O departamento de
agricultura dos EUA avisa que “se tivermos uma seca ou uma colheita muito pobre,
poderemos ver o mesmo tipo de instabilidade que vimos nos anos 1970, e se não acontecer
neste ano, estamos também prevendo estoques mais baixos no ano que vem”. Segundo a
organização da ONU para comida e agricultura, o principal motivo é a demanda de etanol:
o álcool para combustível automotor, que pode ser fabricado a partir do milho e do trigo.

Os fazendeiros irão reagir a preços melhores plantando mais, mas não há uma certeza de
que eles conseguirão alcançar a demanda crescente por biocombustível. Mesmo que o façam,
só o conseguirão arando terra virgem. Já sabemos que o biocombustível é pior para o
planeta que o petróleo. A ONU acaba de publicar um relatório sugerindo que 98% de toda
floresta tropical da Indonésia estará deteriorada ou terá desaparecido até 2022. Há
somente cinco anos, os mesmos organismos previam que isso só aconteceria em 2032. Só que
eles não levaram em conta a plantação de palmeiras produtoras de óleo para biodiesel
para o mercado europeu. Esta é agora a principal causa da destruição de florestas lá e
provavelmente logo será responsável pela extinção dos orangotangos em vida selvagem.

A coisa fica pior. Conforme as florestas são queimadas, tanto as árvores quanto a turfa
na qual estão implantadas são transformadas em dióxido de carbono. Um relatório pela
organização consultora holandesa Delft Hydraulics, mostra que cada tonelada de óleo de
palma resulta em 33 toneladas de emissões de dióxido de carbono, ou seja, 10 vezes mais
que a quantidade produzida pelo petróleo. Sinto que preciso dizer isso de novo.
Biodiesel de óleo de palma causa 10 vezes mais mudança climática que o diesel comum.

Há impactos semelhantes em todo o mundo. Produtores de cana de açúcar estão entrando em
hábitats raros no cerrado brasileiro, e fazendeiros de soja estão arrancando as
florestas tropicais da Amazônia. Como o Presidente Bush acaba de assinar um acordo sobre
biocombustível com o Presidente Lula, é provável que as coisas piorem muito. Os povos
nativos da América do Sul, Ásia e África estão começando a se queixar de incursões em
suas terras por plantadores de combustível. Uma petição apresentada por um grupo chamado
“Vigias de biocombustível” (Biofuelwatch), suplicando aos governos ocidentais para que
parem, foi assinada por pessoas de 250 grupos que aderiram à campanha. O governo
britânico está bem consciente de que existe um problema. No ano passado, o Secretário
(Ministro) para o Meio Ambiente, David Miliband, observou em seu blog que plantações de
palmeiras produtoras de óleo “estão destruindo 0,7% da floresta tropical da Malásia por
ano, reduzindo um recurso natural vital (e no processo destruindo o habitat do
orangotango) . Tudo está ligado”. Diferentemente das políticas do governo.

O motivo pelo qual os governos estão tão entusiasmados com biocombustíveis é que eles
não perturbam os motoristas. Parecem reduzir a quantidade de carbono de nossos carros,
sem exigir novos impostos. É uma ilusão sustentada pelo fato de que apenas as emissões
produzidas em casa contam para nosso total nacional. A eliminação das florestas da
Malásia não aumenta nosso impacto oficial nem sequer em uma grama.

Em fevereiro a comissão européia teve que enfrentar uma escolha direta entre eficiência
de combustível e biocombustíveis. Tinham a intenção de dizer aos fabricantes de carros
que a média de emissões de carbono dos novos carros em 2012 teria que ser de 120 gramas
por quilômetro. Depois de um “lobby” pesado feito por Angela Merkel em favor dos
fabricantes de carros, a comissão entregou os pontos e aumentou o limite para 130
gramas. Anunciaram que compensariam a falta aumentando a proporção de biocombustível.

O governo britânico diz que “irá exigir que os fornecedores de combustível para
transporte registrem a redução de carbono e a sustentabilidade dos biocombustíveis que
eles fornecem”. Mas não irá exigir que façam nada. O governo não pode: seus consultores
já mostraram que se tentar impor padrões ambientais mais amplos para os biocombustíveis,
isso entrará em choque com as regras de comércio mundial. E mesmo biocombustíveis
“sustentáveis” apenas vão ocupar o espaço que outras plantações ocupam agora,
deslocando-as para outros habitats. Promete-se que um dia haverá uma “segunda geração”
de biocombustíveis, feitos de palha ou capim ou madeira. Mas ainda há grandes obstáculos
técnicos. Quando os novos combustíveis estiverem prontos, o estrago já terá sido feito.
Precisamos de uma moratória para todas as metas e incentivos para biocombustíveis, até
que possam produzir uma segunda geração de combustíveis por menos do que custa para
fazer combustível de óleo de palma ou cana de açúcar. Mesmo assim, deve-se estabelecer
metas baixas e ir aumentando-as com cautela. Eu sugiro uma moratória de cinco anos.

Isso exigiria uma campanha enorme, mais difícil que a que ajudou a conseguir uma
moratória de cinco anos no cultivo de plantações geneticamente modificadas no Reino
Unido. Isso foi importante – plantações GM conferem a grandes companhias um controle sem
precedentes sobre a cadeia alimentícia. Mas a maioria de seus efeitos é indireta,
enquanto que a devastação causada pelo biocombustível é imediata e já está visível.

É por isso que vai ser mais difícil parar: incentivados pelas políticas do governo,
vastos investimentos estão sendo feitos por fazendeiros e empresas químicas. Fazer com
que parem exige uma tremenda batalha. Mas tem que ser travada.


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