Sementes

Horacio Martins de Carvalho
quarta-feira 23 de dezembro de 2009 por LRAN

Patrimônio do povo a serviço da humanidade

EDITORA EXPRESSÃO POPULAR

Tradução e revisão: Geraldo Martins de Azevedo Filho, Juan Alberto Pezzutto Blanco, Elisa Schreiner, Werner Fuchs, Paulo Petersen Projeto gráfico, capa e diagramação ZAP Design Ilustração da capa "Semilla" de Egüez Pavel, Equador, 2001 Impressão e acabamento Cromosete

INTRODUÇÃO

A maioria das pessoas em todas as partes do mundo presumia até recentemente que o desenvolvimento científico e tecnológico, aquilo que vulgarmente se denomina ora de ciência ora de técnica, trazia contribuição desinteressada para a melhoria da vida das pessoas, dos povos, das sociedades e do meio ambiente. Tal suposição estendia-se por ilação aos cientistas ou pesquisadores. Pressupunha-se que o desenvolvimento científico e tecnológico seria uma das funções do Estado, ideologizado como um conjunto de instituições a favor de todas as classes. Essa crença na neutralidade do Estado trazia consigo a hipótese de que a geração científica e tecnológica seria da mesma forma política e socialmente neutra e, portanto, estaria ao alcance de todos. Essas crenças, muito difundidas e aceitas, traziam embutidas, como todas as crenças, uma forte dose de esperança e outra, nem sempre na mesma proporção, de ingenuidade e alienação.

Afinal, diziam as vozes do cotidiano, se não acreditarmos na capacidade que o conhecimento dos cientistas e técnicos poderá trazer para a melhoria das condições de vida e de trabalho dos povos, das familias e das pessoas, e se não acreditarmos no Estado como o Estado de todos, quem afinal cuidará da geração de novos conhecimentos científicos e técnicos? Será cada um por si? Sem dúvida que sempre foram e serão as pessoas as que estabelecerão os rumos do desenvolvimento das forças produtivas. Mas, desde há muito tempo, quiçá muitos milênios, não são as pessoas como indivíduos ou aquelas em situação de família, de grupo doméstico, no clã ou na tribo que darão a direção a esse processo de geração de conhecimentos e de técnicas.

Outrossim, o Estado jamais foi um Estado de todos, nem em épocas passadas nem na presente. Essas revelações, aqui esboçadas de modo muito sumário, foram escancaradas para a maioria da população, não através de descobertas íntimas ou de aprendizados na construção de novos conhecimentos pessoais, mas de forma abrupta e possivelmente muito dolorosa após as últimas desventuras dos Estados de bem-estar e dos socialistas durante a década de 1980. Mantida a relatividade dos tempos históricos, diria-se que de repente, não mais do que de repente, aproximadamente há duas décadas, uma onda gigantesca de idéias, processos institucionais e práticas econômicas e sociais de desenvolvimento acelerado, “massivo” e horizontal do neoliberalismo trouxe para as praias de todas as sociedades do mundo, ora de maneira subliminar, ora brutalmente, a reforma neoliberal do Estado, a desregulamentação da economia, a privatização das empresas e autarquias estatais, a globalização das comunicações, dos mercados e dos capitais, a abertura das importações, a privatização dos serviços públicos e a afirmação da hegemonia dos interesses dos grandes grupos capitalistas internacionais.

Quase num susto para a maioria das pessoas que alimentavam a crença de que o Estado estava a serviço de todos nós, percebeu-se, como fato consumado, que esse Estado havia sido explicitamente privatizado. Nesse processo de desmascaramento do caráter do Estado, a ciência e a tecnologia mostraram-se desnudas e nas mãos das grandes empresas capitalistas multinacionais. E num piscar de olhos da História, a biotecnologia, em especial a manipulação genética, foi privatizada. E com ela a geração e comercialização das sementes híbridas e transgênicas.

A partir dos interesses privados das grandes corporações capitalistas e do estabelecimento das normas legais para o patenteamento da propriedade intelectual as sementes tornaram-se um negócio. Vamos dando conta que, neste complexo movimento econômico, político e social do mundo contemporâneo, o novíssimo processo civilizatório está acontecendo sob a hegemonia das grandes empresas privadas multinacionais. Neste contexto histórico, o lucro, o individualismo, a competição, o consumismo, o estrangeirismo, o descaso com a coisa pública e a indiferença pela vida são assumidos como valores éticos e fala-se deles como sinônimos da modernidade.

Neste fluir de rupturas econômicas, políticas e sociais, a pequena agricultura familiar, os camponeses e as populações indígenas têm sido vistos pela maioria dos governos e pelas grandes corporações multinacionais como reminiscências de um passado sepultado pelo capital. Talvez mal sepultado... Governos nacionais e grandes corporações multinacionais, através dos meios de comunicação de massa e da opinião de parte importante da intelectualidade fascinada e cooptada por um suposto “fim da História”, vêm induzindo a opinião pública mundial a aceitar passivamente que as culturas milenares dos povos indígenas e aquelas centenárias das populações camponesas são incompatíveis com o que concebem como o admirável mundo moderno. No Brasil, o “Novo Mundo Rural” foi concebido de maneira a gradativamente deixar fluir para o esquecimento o campesinato e os povos indígenas.

As iniciativas neoliberais hegemônicas nas sociedades ocidentais têm conseguido, através das tentativas insanas de apagar o passado desses povos e dessas populações, rejeitar, não apenas as suas culturas, mas com elas também os meios de produção utilizados como os saberes populares, os sítios ecológicos e as sementes “varietais”. Territórios que foram diferenciados num convívio harmonioso com a natureza e vivenciados por inúmeras gerações, como aqueles dos povos indígenas e das populações camponesas, foram e continuam sendo negados e desconstruídos. As práticas sociais de produção e de relações amorosas com a natureza historicamente consagradas por índios e camponeses não foram ajustadas ou renovadas num processo de construção socializada do novo. No afã da realização máxima dos interesses privados, os grandes grupos econômicos nacionais e multinacionais têm negado os valores que não sejam coadjuvantes do lucro. Os saberes variados das pessoas e dos povos, as formas diferenciadas de viver e de se relacionar no mundo e com o mundo, enfim, outras concepções de mundo que não aquela estritamente defendida pelo grande capital têm sido refutadas.

O novo tornou-se sinônimo apenas das atividades geradoras de lucro. A resistência a essa negação da diversidade tem sido classificada pelos interesses dominantes como arcaísmo. Nesse conflito contemporâneo de concepções de mundo, as sementes “varietais” tornaram-se, para as grandes corporações multinacionais que controlam oligopolistamente a biotecnologia das sementes, uma variável fora de seu controle. Sob todas as formas e meios ao seu alcance, ensaiam ideológica, política e economicamente destruir ou manter sob seu controle restrito e direto o acervo de “germoplasma” dos povos indígenas, dos camponeses e dos agricultores familiares.

O grande capital vem forjando, pela propaganda, uma nova crença no imaginário da maioria da população: a de que os cientistas e pesquisadores das empresas privadas trabalham para o bem comum e que, no lugar do Estado para todos nós, agora está presente a grande corporação privada a serviço de toda a população. Em conseqüência dessas tentativas de controle total sobre o “germoplasma” e as demais formas de manifestação da vida, a luta em defesa das sementes “varietais”, nativas e crioulas tornou-se emblemática da luta pelo direito à vida e à sua diversidade. Apesar de se constatar que a onda neoliberal vem sufocando a agricultura familiar, o campesinato e os povos indígenas e procurando tragar, através de uma minoria de grandes corporações, o controle sobre todas as formas de manifestação da vida, observa-se, por outro lado, que a resistência a esse ímpeto renasce e se amplia em todas as partes do mundo com um vigor admirável de iniciativas pessoais e institucionais, públicas e privadas, da sociedade civil, dos movimentos sociais e étnicos e das organizações sindicais.

Uma rede globalizada de esperanças, de iniciativas múltiplas e de ações diretas constrói a cada dia uma vivência compartilhada e pluralista a favor da vida. A campanha “sementes patrimônio do povo a serviço da humanidade”, ao defender os direitos dos agricultores familiares, dos camponeses e dos povos indígenas de produzirem, guardarem e trocarem as sementes “varietais”, e ao criticar todas as formas e meios de patenteamento da vida, ergue, ao mesmo tempo, uma barreira política e ideológica pluralista para deter essa ofensiva neoliberal, que tenta monopolizar e transformar todas as formas de vida em negócio. Este livro é uma iniciativa entre milhares de outras que afloram em todo o mundo em defesa da vida e da diversidade biológica, cultural, étnica, econômica, política e ideológica. Ele veicula uma mensagem, quem sabe, profética: denuncia a violência contra a vida, contra todas as formas de vida.

Afirma que a vida é frágil e diversificada, mas que tanto essa fragilidade quanto a sua diversidade poderá ser manipulada por poucos, muito poucos. Anuncia que é necessário tratá-la com amor e que cresce em todo o mundo o desejo e a esperança de garantir essa fragilidade e a sua diversidade. Este livro fez-se como um gesto de ternura, de se doar porque é muito bom vivenciar a gratuidade e, com ela, a solidariedade. Elas nos fazem menos alheios ao quefazer do mundo, quiçá nos tragam por momentos a descoberta do estar aí neste mundo pleno de carências e de abundâncias, neste turbilhão de vivências sem repetições por onde o hoje já passou e onde o amanhã é uma incerteza: a única certeza é o passado. A semente, essa carga de passado no presente, ponte para o futuro, faz-se um “símbolo das forças latentes... das possibilidades misteriosas...” (Cirlot), torna-se a portadora da esperança. Fez-se também – o livro – porque é necessário ampliar as informações para as pessoas e as instituições que estão convivendo diretamente com esses novos desafios. E nem podem refletir nas informações e comentários sobre os processos, fatos e intenções de vários grupos econômicos nacionais e internacionais, que buscam privatizar e monopolizar os genes, e nas informações sobre as destruições que estão provocando. Fez-se – o livro – ainda mais, porque agricultores familiares, camponeses e povos indígenas, assim como os seus amigos, parceiros e aliados em todo o mundo, já praticam e desejam recuperar maneiras mais harmoniosas de conviver, produtiva e socialmente, com a natureza.

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23 de dezembro de 2009
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