Maria Luisa Mendonça é jornalista e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

Colômbia: por trás da crise

Maria Luisa Mendonça
sexta-feira 14 de março de 2008 por LRAN

É incrível como os meios de comunicação conservadores mantêm credibilidade, mesmo quando insistem em repetir chavões que são indiscutivelmente incompatíveis com a realidade. O caso da chamada “crise” na América Latina, causada pela invasão do território equatoriano pela Colômbia, é emblemático.

Vejamos alguns fatos. Todos os países da América Latina condenaram a invasão, que foi inclusive repreendida oficialmente em reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos). Logo após, durante a reunião do Grupo do Rio em Santo Domingo, o presidente do Equador Rafael Correia, com apoio dos demais chefes de Estado, expressou claramente sua decisão de seguir com as negociações diplomáticas para a libertação de reféns e o fim da guerra na Colômbia.

A única posição destoante foi a de Álvaro Uribe, que segue distribuindo ataques e ameaças aos países vizinhos. Apesar disso, muitos meios de comunicação passam uma imagem de Uribe como vítima e dos presidentes Hugo Chaves e Rafael Correia, que tentavam mediar um acordo humanitário na Colômbia, como agressores. Além de contrariar os fatos, esta versão não condiz com o histórico de repressão promovido pelo governo colombiano, que não tem interesse em uma negociação pacífica.

O Plano Colômbia, principal mecanismo de manutenção da guerra e de sustentação do governo Uribe, possibilita o lucro de latifundiários e grandes empresas. Os focos de violência, que causam a expulsão da população indígena e camponesa de suas terras, coincidem com regiões ricas em biodiversidade e recursos naturais. O aparato militar patrocinado através do Plano Colômbia facilita a implementação de mega-projetos hidroelétricos, petrolíferos e de mineração.

Em preparação para o Plano Colômbia, o governo concedeu contratos de exploração de petróleo a empresas norte-americanas em grandes reservas, como na região de Putumayo, controlada por grupos paramilitares. Outras empresas multinacionais lucram com a guerra, como no caso da Phillip Morris, que passou a monopolizar a produção de café no país. As políticas de abertura comercial impostas pelos Estados Unidos, inclusive com o fim do Pacto Mundial do Café, destruíram a agricultura colombiana, estimulando a plantação da folha de coca.

O governo poupou somente os grandes produtores de cana-de-açúcar e da palma azeiteira do corte das tarifas para importação. Estes setores são controlados por grandes latifundiários e grupos paramilitares. Quando assumiu o governo, Uribe aprofundou o modelo neoliberal para financiar a militarização no país. Uma de suas medidas foi criar o “imposto de guerra”, além de aumentar a carga tributária para produtos de primeira necessidade, como alimentos.

O início do Plano Colômbia, em agosto de 2000, coincidiu com o aumento da violência contra a população civil e particularmente contra lideranças de movimentos sociais. Somente em janeiro de 2001, ocorreram pelo menos 27 massacres, nos quais cerca de 200 civis foram mortos. A organização Washington Office on Latin America estima que, desde o início do Plano Colômbia, a média de mortes em combate e assassinatos políticos tem aumentado, chegando a 14 pessoas por dia. Pelo menos 78% dos massacres ocorridos desde 1999 têm sido praticados por grupos paramilitares.

O suposto “combate às drogas” serviu também para expulsar povos indígenas e camponeses de suas terras. Mais de um milhão de hectares da floresta colombiana já foram contaminados por agentes químicos utilizados nas fumigações pelo exército colombiano, sob o pretexto de combater o cultivo de coca. O resultado tem sido a migração massiva de comunidades camponesas e indígenas. Estima-se que o número de refugiados internos na Colômbia ultrapasse três milhões de pessoas. Uma das modificações na legislação proposta por Uribe estabelece que as terras abandonadas pelos camponeses sejam doadas, o que serve de justificativa para legalizar os despejos forçados.

O governo utiliza a guerra para restringir direitos civis. A Constituição colombiana é fruto de mobilizações sociais ocorridas em 1991 e preserva direitos coletivos, como de povos indígenas. A reforma proposta por Uribe pretendia eliminar a ação de tutela para direitos coletivos, além de dar funções judiciais ao Exército, como ordens de busca e apreensão, prisões e poderes para interceptar comunicações. Também pretendia restringir o direito ao habeas corpus e aumentar o tempo de prisão sem justificativa, para esconder casos freqüentes de tortura e desaparecimento de pessoas.

A guerra na Colômbia tem sido apoiada pelos Estados Unidos há décadas. No período da Guerra Fria, os EUA identificaram a Colômbia como país estratégico, por sua localização geográfica e seus recursos naturais. Por isso, estimularam assassinatos políticos, desde o período conhecido como “A Violência”, nos anos 50, quando cerca de 200 mil pessoas foram mortas. Desde então, a atuação de esquadrões da morte tem ajudado a manter governos conservadores no poder.

Em 1962, durante o governo de John Kennedy, o General William Pelham Yarborough, comandante exército dos Estados Unidos na Escola Especial de Guerra (Special Warfare School) passou a treinar tropas estrangeiras em “táticas não convencionais”. Ao retornar de uma missão na Colômbia, afirmou em relatório que sua proposta era “selecionar civis e militares para treinamentos clandestinos, para funcionar como contra-insurgentes, executar tarefas de contra-propaganda e, se necessário, executar atividades paramilitares, de sabotagem e de terrorismo contra candidatos conhecidos como comunistas”.

Desde o início do Plano Colômbia, o país já recebeu mais de 4 bilhões de dólares em ‘ajuda militar´. O maior contingente de oficiais estrangeiros treinados nos Estados Unidos, inclusive na Escola das Américas, tem sido de soldados colombianos. Ao mesmo tempo, o comércio de drogas aumenta nos Estados Unidos, estimulado por preços menores do que antes do Plano Colômbia.

Este breve histórico serve para mostrar a quem interessa a continuidade e a expansão da guerra na Colômbia. As repetidas acusações plantadas na mídia corporativa contra governos não subservientes à política externa estadunidense, como é o caso de Venezuela e Equador, buscam confundir a opinião pública e frear reações contrárias às políticas neoliberais em nosso continente. Hoje, defender a paz na Colômbia representa um ato revolucionário frente ao poder do narcotráfico e de seu aparato de sustentação.


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