Governo do México lança ofensiva paramilitar contra os zapatistas

terça-feira 27 de novembro de 2007 por LRAN

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) denuncia que o presidente Felipe Calderón (México) orquestra um novo plano para desestabilizar as comunidades zapatistas de Chiapas. O mandatário estaria recrutando pessoas nas cidades vizinhas para ingressar na Organização para a Defesa dos Direitos Indígenas e Camponeses. O grupo, que atua como paramilitar, promove ataques aos municípios autônomos de bases zapatistas."Calderón deixou claro que governará com as forças repressivas e estamos vivenciando isso. Estão buscando todas as formas para dividir as comunidades e nos eliminar" alerta, à , reportagem do Brasil de Fato na região, um dos comandantes zapatistas

Claudia Jardim de Morelia, Chiapas (México)

AINDA NÃO havia amanhecido quando José chegou ao Caracol "Torbellino de Nuestras Palabras" para assumir sua tarefa da semana. Atencioso e de fala mansa, esse camponês seria o encarregado de cuidar da segurança da comunidade. "Estamos em alerta máximo. Há uma outra investida paramilitar em nossos territórios", adverte o zapatista. Resistir. Essa é a palavra de ordem que tem determinado a vida das comunidades autônomas zapatistas, em especial, nos últimos meses. Uma nova onda de ataques por parte da Organização para a Defesa dos Direitos Indígenas e Camponeses (Opddic), que atua como paramilitares, vem desestabilizando os municípios autônomos de bases zapatistas. De acordo com o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), a organização tem apoio dos governos federal e local. E mantém sob ameaça de despejo as comunidades zapatistas que ocupam as terras da Selva Lacandona. Os ataques da Opddic são considerados pelo EZLN como parte de um novo plano de contrainsurgência orquestrado pelo governo conservador de Felipe Calderón, apoiado pelo governo de Chiapas, comandado pelo suposto esquerdista Juan Sabines (PRD). Enfrentamentos, camponeses feridos e dezenas de comunidades despojadas são o primeiro balanço da nova ofensiva do Estado mexicano.

Repressão

Imediatamente ao assumir o poder e sem legitimidade devido às acusações de fraude nos resultados eleitorais, Calderón enviou uma mensagem clara ao país. Uma das suas primeiras medidas foi elevar de maneira exorbitante os salários dos membros das Forças Armadas. "Calderón deixou claro que governará com as forças repressivas e estamos vivenciando isso. Estão buscando todas as formas para dividir as comunidades e nos eliminar", disse ao Brasil de Fato um dos comandantes do EZLN no caracol Oventic, Chiapas. O EZLN, suas bases de apoio, seu projeto integral de organização e sua representatividade continuam sendo tratados como um assunto de Segurança Nacional de alto nível para o Estado mexicano, de acordo com o Centro de Análises Políticas e Investigações Sociais e Econômicas (Capise).

"A partir do lançamento da Sexta Declaração da Selva Lacandona e dos percursos da comissão do EZLN por todo o território nacional, o Estado mexicano vem implementando uma brutal ofensiva contra os povos zapatistas, suas autoridades e seu projeto autônomo", afirma o relatório Terra e Território, elaborado pelo Capise.

Indígenas paramilitares

Chiapas é um dos Estados mais pobres de todo o Estado mexicano. Entre 60% e 80% da população recebe salários inferiores ao mínimo. A escassez de recursos e alimentos é extrema. Sob a luz dessa realidade, os governos federal e estadual agudizam a criminalização à organização social, com a promessa de premiar os que não são "invasores". Com a cumplicidade da Secretaria de Reforma Agrária e o Tribunal Agrário, um dos problemas que marca a nova ofensiva estatal e paramilitar é o recrutamento de comunidades vizinhas aos territórios autonômos. Iludidos com a possibilidade de conseguir um pedaço de terra, indígenas e camponeses estão sendo aliciados pela Opddic para combater as comunidades zapatistas. "O governo agora não manda o exército e, sim, forma os paramilita-

Zapatistas estão prontos para resistir aos paramilitares financiados pelo governo, que atuam sob o nome de Organização para a Defesa dos Direitos Indígenas e Camponeses

Ao expulsar os camponeses zapatistas, o governo de Calderón abre caminho para explorar uma provável reserva de urânio existente na região
res para nos atacar. E os paramilitares são indígenas. O que querem com isso? Que comecemos uma guerra entre nós mesmos, entre nossas comunidades indígenas", explicou um dos membros da Junta de Bom Governo (JBG) do caracol "Torbellino de Nuestras Palabras, composta por 21 representantes de sete municípios chiapanecos.

Conflicto

A última ofensiva da Opddic ocorreu na região de Água Azuis, um dos principais centros turísticos de Chiapas, caracterizado por extensas e exuberantes cachoeiras no meio da selva.

Entre os dias 11 e 15 de setembro, um grupo de paramilitares atacou as bases de apoio zapatistas de Bolon Ajaw, localizada a três quilomêtros do Águas Azuis, com o objetivo de ampliar sua oferta turística na região. Três camponeses zapatistas foram detidos no confronto e outros ficaram feridos. Três dias após o incidente, a casa de um dos camponeses autônomos foi incendiada. Jornais locais e nacionais aproveitaram o confronto em Bolow Ajaw para intensificar a campanha contra as comunidades zapatistas. Afirmando que os camponeses autônomos eram os agressores e responsáveis pelo conflito, os diários publicaram fotos de 1994, quando o EZLN se levantou em armas, como se as fotografias houvessem sido tomadas em Bolow Ajaw durante o incidente. "Houve momentos de tensão porque os zapatistas esperavam com armas de alto poder", afirmaram os principais jornais do país.

Na verdade, de acordo com uma investigação realizada pelo Capise logo após o conflito, esse armamento pessado era composto por "varas e paus de um metro de extensão". "Há muito tempo que os jornais não se prestavam a este tipo de manipulação. Esse é um indicativo alarmante e preocupante da nova ofensiva repressiva, apoiada pela imprensa", comenta a jornalista Gloria Muñoz.

Disputa

O conflito em Águas Azuis não é um fato isolado. Nos últimos meses, os Caracóis Roberto Barrios, La Garrucha, Oventic e Torbellino de Nuestras Palabras, que abrigam em média 28 municípios e milhares de famílias, são alvo agressões e despejos realizados pela Opddic. Os interesses em jogo são: território e recursos naturais. Ao expulsar os camponeses zapatistas, o governo de Calderón abre caminho para explorar uma provável reserva de urânio existente na região, a água e uma extensa área de biodiversidade e pedras preciosas, altamente cobiçadas pelo capital estrangeiro. "Dizem que vão fazer uma área de reserva natural, mas o que querem é continuar saqueando nossos recursos, vendendo nossas terras. Não vamos permitir", afirmaram os comandantes do EZLN no Caracol de Oventic. Ao analisar o conflito, a JBG explicou ao Brasil de Fato que suas armas serão o "recuo e a resistência" para evitar confrontos que terminem em maior gravidade. "Não vamos brigar entre camponeses. Nosso inimigo é o mau governo", afirma um dos membros da JBG.

Exército Zapatista: libertação indígena e popular


O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) surgiu simbolicamente em janeiro de 1994, coincidindo com a data da assinatura do Tratado de Livre Comércio entre México, Estados Unidos e Canadá (Nafta). O conflito armado chegou a uma trégua logo depois do levantamento com a assinatura dos Acordos de San Andrés, no qual o governo mexicano se comprometeu em cumprir e reconhecer a Constituição Federal. Os acordos, entre outras coisas, exigem o direito à livre determinação dos povos indígenas, acesso à saúde, educação e moradias dignas. Nada disso foi cumprido, o que determinou assim o silêncio e uma ruptura definitiva do EZLN com a institucionalidade.

Em 2003, nascem os Caracóis e as Juntas de Bom Governo. Os Caracóis são a máxima representação dos municípios autônomos zapatistas. Concentram todas as atividades políticas, organizativas e culturais de um determinado número de municípios zapatistas. A Junta de Bom Governo é parte da hierarquia dos Caracóis. Nela, representantes dos municípios eleitos em Assembléias Populares assumem o controle do Caracol durante trës anos consecutivos.

Os Caracóis nascem após um processo de reflexão e autocrítica do EZLN e das bases de apoio zapatistas sobre a participação popular na tomada de decisões. A partir disso, é definido que toda e todo zapatista "deve ser e exercer o autogoverno". Na estrutura de poder dos Caracóis, em primeiro lugar vem a Junta de Bom Governo e, logo depois, a Comissão composta por comandantes do EZLN, que assumem no organograma a tarefa de conselheiros políticos.

Violência obriga EZLN suspender "Otra Campaña" de Morelia, Chiapas

(México) As agressões às comunidades autônomas fizeram o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) suspender, por enquanto, o giro da segunda etapa da "Otra Campaña", prevista para os meses de setembro a dezembro.

"Despejos `oficiais’, ataques de paramilitares, invasões patrocinadas por funcionários, perseguições e ameaças voltam a ser parte do entorno das comunidades indígenas zapatistas", afirma o comunicado firmado pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena (CCRI) do EZLN, dia 24.

O Comitê responsabiliza tanto o governo mexicano conservador de Felipe Calderón quanto aponta a cumplicidade do partido de Andres Manuel López Obrador, o PRD ­ que questiona a legitimidade das últimas eleições presidencias ­ frente às ações coordenadas pelo governador de Chiapas, também do PRD, Juan Sabines. "Assim se cumpre o que há três anos estamos dizendo: lá em cima não existem principios nem convicções. Ao contrário, existem ambições e conveniências.

E se cumpre como havíamos dito: a esquerda institucional não é mais que uma direita vergonhosa, uma direita com aval ilustrado", diz o comunicado do CCRI. O EZLN somente deverá participar do Encontro dos Povos Índios da América, entre os dias 11 e 14 de outubro, que será realizado em Sonora, México. A segunda etapa da "Otra Campaña" dará lugar a "ações civis e pacíficas em defesa das comunidades zapatistas", afirma o EZLN. Lançada em 2005, um ano antes das eleições presidenciais, a "Otra Campaña" busca escutar o povo mexicano, organizado ou não, mas que "de baixo e à esquerda" na construção de alternativas para transformar a sociedade, enfatizando a luta anticapitalista, antiimperialista e de respeito à diversidade e autonomia dos povos. (CJ)


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