IMPACTOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E AMBIENTAIS DEVIDO À EXPANSÃO DA OFERTA DO ETANOL NO BRASIL

HORACIO MARTINS DE CARVALHO
terça-feira 17 de julho de 2007 por LRAN

(Curitiba, 10 de julho de 2007)

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1. Preliminares

A padrão de crescimento econômico estabelecido na sociedade
capitalista contemporânea repousa, em particular nesta fase de afirmação
global e hegemônica das idéias e práticas neoliberais, nas megaempresas
capitalistas multinacionais, ainda que estas tenham origens nacionais bem
determinadas.

É, antes de tudo, um padrão econômico que tem como referencial a
concepção de mundo na qual a direção do desenvolvimento e do governo das
sociedades nacionais deve ocorrer cada dia mais sob o império de uma nação-
rede (império dos EUA e dos paises industrializados que lhe são orgânicos
na dominação mundial) e de um grupo restrito dessas megaempresas
multinacionais, as quais definem a natureza e a forma do desenvolvimento
econômico e do progresso técnico.

Essa racionalidade capitalista contemporânea, que vem sendo construída
há várias décadas, determinou e determina a forma como se dá e se dará a
industrialização e, numa relação de causa e efeito, a composição da matriz
energética mundial.

Foram diversos os fatores que determinaram a dependência mundial da
fonte energética não renovável com base no petróleo após o final do séc.
XIX. O principal, talvez, tenha sido a diversidade de usos que o petróleo
proporcionou com o sistemático avanço das ciências e das tecnologias
aplicadas para a sua utilização desde o início da sua extração comercial
(1859). Foi, no entanto, com o advento da indústria automobilística e da
aviação, assim como das guerras, que o petróleo se tornou o principal
produto estratégico do mundo moderno. As maiores 100 empresas do século XX
estavam ligadas ao automóvel ou ao petróleo.[ii]

Em 2004, a OIE (Oferta Interna de Energia) no mundo foi de 86,7% de
energia de fontes não renováveis e 13,2% de fontes renováveis. Na
OCDE[iii], nesse ano, a OIE foi de 93,9% de energia de fontes não
renováveis e de 6,1% de fontes renováveis. E o petróleo respondeu, em 2004,
por 34% de toda a oferta energia gerada no mundo, sendo que na matriz
energética brasileira ele respondeu por 37,9% da OIE em 2006.

Segundo o governo dos EUA se prevê que o consumo mundial de energia
aumentará 71% entre 2003 e 2030, e a maior parte desse aumento terá como
fonte uma maior demanda de petróleo, carvão e gás natural. Para o final
desse período (2030) toda a energia renovável (incluído os
agrocombustíveis) está estimada em 9% do consumo mundial de energia. Nesse
sentido é relativo e perigoso se considerar como certo que os
agrocombustíveis jogarão um papel importante na luta contra o aquecimento
global.[iv]

A política global de créditos de carbono evidencia que a intenção dos
paises mais industrializados é a de manter o padrão econômico
historicamente estabelecido na sua industrialização, mesmo com esforços de
melhoria do seu rendimento energético. Isso quer dizer que a pretensão dos
governos desses paises é a redução mínima da emissão de gases de efeito
estufa (GEE) num nível apenas necessário para servir de base para a sua
ideologia de pseudoparticipação no controle e redução do aquecimento
global. Ao mesmo tempo, esses paises ampliam os processos de transferência
das suas indústrias eletrointensivas e aquelas ambientalmente poluidoras do
meio ambiente para os paises ditos como em desenvolvimento.

A matriz energética brasileira apresenta uma composição mais
dependente do petróleo (37,9% em 2006) do que a matriz mundial (34% em
2004), porém menos dependente do carvão mineral (Brasil 6,0% em 2006 e a
mundial de 25,1% em 2004) e do gás natural (Brasil 9,6% em 2006 e a
mundial 20,9% em 2004). No caso brasileiro a energia de fontes renováveis
tem percentagem relativa bem elevada.

Em 2006, a OIE no Brasil foi de 55,1% de energia não renovável e 44,9%
de fontes renováveis. A composição da matriz energética brasileira em 2006,
por fonte de OIE, foi:

- não renovável: petróleo com 37,9%; gás natural 9,6%; carvão mineral
6,0%; urânio 1,6%

- renovável: energia hidráulica 14,8%; produtos da cana-de-açúcar
14,6%; lenha 12,4% e outras fontes 3,0%.

Apesar dessa melhor qualidade da matriz energética brasileira em
relação à matriz energética mundial, a composição das fontes de energia
renovável apresenta problemas de outra natureza, mas muito preocupantes,
tanto do ponto de vista econômico e social como ambiental.

Duas fontes importantes de energia renovável, a hidráulica e a da
biomassa, que representaram somadas 41,8% da oferta total de energia em
2006, tendem a se constituírem como espaços econômicos privilegiados das
megaempresas multinacionais e nacionais, associadas entre si ou não, para a
produção e consumo a partir de seus interesses corporativos, seja interno
nas suas indústrias seja para venda nos mercados interno e externo.

Por exemplo, "(...) a Associação Brasileira de Grandes Consumidores
de Energia (elétrica - HMC) e de Consumidores Livres (Abrace) reúne as
principais companhias da indústria eletrointensiva ... consomem 20% da
energia elétrica produzida no País ou 45% da soma total do consumo
industrial. O faturamento das empresas filiadas à Abrace resvala nos R$ 260
bilhões anuais, o equivalente a 46,1% do valor da produção da indústria
extrativa e de transformação; a 13% do faturamento de todas as empresas do
país e a 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro", como a própria
associação define em seu site. Esse poder de fogo proveniente da união de
empresas como Alcoa, Aracruz, Bunge, Camargo Corrêa, Companhia Vale do Rio
Doce (CVRD), Gerdau e Votorantim exerce uma substantiva influência na
definição de novos investimentos no setor de infra-estrutura e, em
especial, no setor elétrico. Parte desses grupos têm interesse direto tanto
na participação de consórcios para obras quanto no acesso à energia barata
como ’consumidores livres’ (consomem acima de 3 mil MW por mês e podem
comprar eletricidade diretamente do produtor que desejarem- HMC) (...)".[v]

Um outro exemplo, um caso particular, ajuda a compreender essa
tendência à monopolização no setor elétrico. "(...) Dados do Ministério de
Minas e Energia demonstram que 408 indústrias eletrointensivas consomem
28,8% de toda a energia elétrica produzida no País, o que a faz, ao mesmo
tempo, massiva exportadora de energia elétrica e água. Vejamos um exemplo
prático - metade da energia elétrica produzida em Tucuruí é contratualmente
destinada à industria de alumínio. Cerca de 41% do custo final do
processamento do alumínio corresponde à energia elétrica e, no caso de
Tucuruí, isto é significativo porque sua tarifa subsidiada é 30% menor do
que seria no sul ou sudeste do país. É por isto que o Japão produzia 1,1
milhão de toneladas de alumínio por ano e baixou a produção para apenas 41
mil toneladas/ano, passando a importar o restante. Neste caso, a indústria
eletrointensiva é ’competitiva’ porque, como todas as exportações de bens
primários de baixo valor agregado, soma mão de obra barata, energia
elétrica subsidiada e gigantescas quantidades de água virtual."[vi]

Com relação à fonte de energia a partir da biomassa, em particular a
oferta de etanol e de lenha, a perspectiva é de oligopolização da produção
pelo controle seja das usinas sucroalcooleiras para a oferta de etanol
combustível e dos fornos de produção do carvão vegetal para a indústria
siderúrgica, seja pelo controle em parte direto e em outra parte
indiretamente da produção da matéria prima cana-de-açúcar e eucalipto.

Portanto, por um lado, mesmo que a matriz energética brasileira,
ainda dependente do petróleo, tenha na sua composição uma forte presença de
fontes renováveis de oferta de energia, o que é desejável, por outro lado,
essas fontes renováveis de energia estão sob controle econômico
oligopolístico. Esse controle econômico das megaempresas lhes dá poder
político de determinar como, quando e onde se dará essa oferta de energia
renovável.

Esse controle oligopolístico das fontes renováveis de energia ao
mesmo tempo em que operam com fontes que poderiam desenvolver mecanismos
limpos de produção de energia renovável permitem que as megaempresas se
tornem os principais violadores das normas institucionais e da opinião
pública no que se referem às questões sociais e ambientais.

As fontes renováveis de energia a partir das usinas hidroelétricas e
da biomassa (etanol, óleos vegetais e madeira) não devem ser dissociadas de
outras variáveis como o controle do território (produção da biomassa), da
água doce (energia elétrica e transportes), da presença do capital
estrangeiro na economia do país, da oligopolização das fontes de energia
renovável e da permissividade na remessa de lucros (royalties, dividendos,
etc.). E como consequência desses fatores os impactos perversos de natureza
econômica, social, ambiental, política e institucional na dinâmica do
desenvolvimento do país.

Dessa maneira, a reflexão sobre o caso particular da oferta de
energia renovável a partir da biomassa, em especial do etanol combustível,
não deveria ser dissociada da apreciação das demais fontes que constituem a
OIE no Brasil.

2. A matriz energética brasileira

Retomando os dados gerais sobre a matriz energética brasileira, tem-se
que OIE no Brasil, em 2006, apresentou a seguinte composição: 55,1% de
energia não renovável e 44,9% de fontes renováveis. Essa composição por
fonte foi:
- não renovável: petróleo com 37,9%; gás natural 9,6%; carvão mineral
6,0%; urânio 1,6%
- renovável: energia hidráulica 14,8%; produtos da cana-de-açúcar
14,6%; lenha 12,4% e outras fontes 3,0%.
- Os derivados de petróleo continuam a liderar a participação na
matriz energética, com 37,9% de oferta, ainda que tenha apresentado
discreta redução (-2,1%) em relação a 2005.
- O gás natural é a fonte que mais cresce entre as fontes não
renováveis da matriz energética. Nos últimos anos, sua participação
na oferta interna dobrou de 3,7%, em 1998, para 9,5%, em 2006.
- A geração de energia de carvão mineral e de seus derivados caiu 3%
em relação a 2005. E a oferta interna de energia elétrica cresceu
4,5%, chegando a 461,3 TWh, enquanto a geração termelétrica
nuclear, com a operação das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2,
expandiu-se em 40%.
- Com relação à fonte renovável biomassa, em particular a cana-de-
açúcar, a oferta interna de energia fornecida pelos seus derivados
cresceu de 13,8%, em 2005, para 14,4% em 2006.
- O etanol destaca-se como grande fornecedor de energia a partir da
biomassa. Na safra 2005/2006 produção nacional de etanol foi de
17,47 bilhões de litros, 10,8% maior do que a de 2004/5. Para a
safra 2006/2007 a previsão é de 20,1 bilhões de litros, ou seja,
14,54% maior que a anterior.[vii]

3. Energias de fontes renováveis na matriz energética brasileira

- De acordo com a OCDE, o Brasil deve manter a liderança na produção de
energias renováveis pelos próximos 25 anos entre os países emergentes.
- A energia renovável representa 44,9% da matriz energética brasileira,
ante 14% no mundo e apenas 6% nos países mais desenvolvidos da OCDE.
- No caso do Brasil, a expressiva participação da energia hidráulica
(14,8 % da energia renovável) e o uso representativo de biomassa
(cana 14,6 % e lenha 12, 4%) proporcionam indicadores de emissões
de CO2 bem menores que a média dos países desenvolvidos.
- No Brasil, a emissão é de 1,57 ton. de CO2 por tep[viii] da OIE,
enquanto nos países da OCDE a emissão é de 2,37 toneladas de CO2
por tep, ou seja, 51% maior.
- No entanto, apesar da produção mais limpa de energia, essa organização
(OCDE) estima que as emissões de dióxido de carbono (CO2) pelo Brasil
para a atmosfera vão aumentar em 70,5% até 2030, superior à média
mundial, que será de 52%.[ix]
- Em relação a 2005, a demanda por energia renovável no Brasil decresceu
apenas nos usos da lenha (-1,4%), em razão de recuo na cocção de
alimentos pelo maior uso do GLP. A maior demanda por energia renovável
continuou sendo "hidráulica e eletricidade", com 14,8% do total da
oferta interna de energia. Houve, porém, expressivo aumento da
participação dos derivados da cana-de-açúcar, que passou a representar
14,6 % da matriz energética brasileira (9,6% de crescimento).

Todavia, esse esforço governamental e privado de aumento das fontes de
energia não renováveis reforça um viés que mantém esse aumento da oferta de
energia de fonte hidráulica e da biomassa dependente dos megaprojetos e do
capital estrangeiro.

Segundo o prof. Garzon[x], o Plano de Aceleração do Crescimento - PAC
instituído em 2007 pelo governo federal reforça o abastecimento energético
de forma enviesada: ele já vem contaminado pelos interesses particulares e
de projetos específicos de grandes grupos econômicos. O PAC é, desse ponto
de vista, um programa perverso, pois reforça os que já são fortes e não
estabelece nenhum tipo de prioridade para resgatar os setores que encadeiam
a economia nacional, ou seja, voltados para o mercado interno, para os
mercados regionais, para processos de agregação de valor e multiplicação de
talentos, de capacidade, de geração de tecnologias.

É crescente o esforço da classe dominante no Brasil, seja a partir dos
organismos governamentais, seja das grandes empresas privadas nacionais e
estrangeiras, de aumentar a oferta de energia de fontes renováveis como a
energia de fonte hidroelétrica e a da biomassa, esta em particular a partir
da cana-de-açúcar. Isso porque essas megaempresas nacionais e
multinacionais já possuem o controle efetivo da oferta de energia elétrica
no país, tem garantias de que ganharam novas licitações para novas
hidroelétricas e construam as barragens e usinas com a impunidade pelos
impactos ambientais e sociais típicos de situações de exceção política
favoráveis ao grande capital. Caminho similar, ainda que um pouco mais
amplo, se constrói para a expansão oferta de etanol e de madeira, seja para
celulose seja para carvão vegetal, tanto no nível da produção da matéria
prima seja no da sua industrialização.

Sem dúvida que há uma demanda mundial crescente por agrocombustíveis e
que o Brasil apresenta condições favoráveis para participar de maneira
importante no atendimento dessa demanda. No entanto, as formas como cresce
a oferta de agrocombustíveis no Brasil, em especial a de etanol
combustível, revela desde logo uma inadequação entre o aumento da oferta de
etanol e a afirmação da soberania popular no país. Continuam sendo
reproduzidas aquelas condições e práticas econômicas, sociais e ambientais
absolutamente incompatíveis com o que se afirma pela noção de
desenvolvimento de mecanismos limpos e sustentáveis de incremento das
fontes renováveis de energia.

4. Demanda de etanol combustível

Três fatores têm sido determinantes para a tendência de alteração
discreta da matriz energética mundial: a) a elevação, discreta mas
crescente, dos custos da extração, do refino e da distribuição do petróleo;
b) a inviabilidade objetiva das grandes empresas multinacionais do petróleo
controlarem como desejavam as fontes de petróleo no oriente médio e,
recentemente, na Venezuela; c) as questões ambientais, entre elas a redução
da emissão de gases de efeito estufa (GEE) que contribuem para o
aquecimento global.

Já há, no entanto, a determinação da maioria dos governos dos paises
do mundo de substituírem parte da gasolina pelo etanol. A referência é se
alcançar em 2017 a substituição de 20% da gasolina pelo etanol em todo o
mundo. No Brasil, essa percentagem de mistura de etano, na gasolina já
alcança 25% desde 1º de julho de 2007. Mesmo com essa percentagem de
mistura de etanol na gasolina o país ainda terá 4 bilhões de litros de
etanol excedente.[xi]

- Os EUA possuem 40% de toda a frota mundial de veículos. Portanto, as
demandas esperadas de etanol por parte desse país são muito
significativas pelo volume da demanda potencial.
- O EUA e o Brasil produzem juntos 70% de todo etanol do mundo. Isso
significou em 2006 cerca de 38,5 bilhões de litros de etanol
combustível. Sendo que os EUA produziram 20 bilhões de litros e o
Brasil 18,5 bilhões de litros.
- No entanto, o consumo de etanol nos Estados Unidos deve ter
ultrapassado os 22,7 bilhões de litros em 2006.
- Em 2005, o governo norte-americano impôs uma meta compulsória de uso
de 28,3 bilhões de litros de agrocombustíveis ao ano até 2012; no
começo de 2007, 37 governadores propuseram que esse número fosse
elevado a 45,3 bilhões de litros ao ano em 2010, e o presidente Bush
elevou ainda mais essa meta, para 132 bilhões de litros anuais em
2017.
- Nos EUA mais de 22 bilhões de litros de etanol serão necessários a
cada ano para substituir o aditivo conhecido como MTBE[xii], tendo em
vista reduzir os seus efeitos poluentes sobre o lençol freático. Desde
1990 a gasolina sem chumbo poderia conter de 10% a 15% desse
produto.[xiii]
- A perspectiva é de que os Estados Unidos reduzam o consumo de gasolina
em 20% até 2017. Isso supõe aumentar em 800% o consumo de etanol em
2017. Mesmo que a produção de milho dos Estados Unidos cresça a 30% ao
ano, não alcançará volume para satisfazer demanda de agrocombustíveis
além de garantir a oferta para alimentos.
- Acresce-se a isso que o custo do etanol da cana-de-açúcar é muito
menor do que aquele extraído do milho. Surge daí uma das causas da
necessidade dos capitalistas buscarem sócios estratégicos nos paises
onde o etanol possa ser produzido com menor custos e a partir da cana-
de-açúcar.

A demanda potencial de etanol combustível no nível mundial será
crescente e continuada. É necessário salientar que somente a China e a
Índia possuem juntas um terço da população mundial (2,3 bilhões de
habitantes) e devem continuar a ter altas taxas de crescimento econômico, o
que implicará supostamente em aumento da demanda de etanol e de óleos
vegetais combustíveis para dar conta das recomendações da mistura etanol
com gasolina e dos óleos vegetais para utilização pura ou em mistura com o
diesel. E se considerarmos, ainda, os paises industrializados como aqueles
da Comunidade Européia, o Japão, a Coréia e a Rússia tudo leva a crer que a
corrida pelo etanol e pelos óleos vegetais significará mais do um processo
conjuntural. Representará uma mudança estrutural no perfil da oferta de
matéria prima mundial para o etanol e os óleos vegetais combustíveis, em
especial no Brasil.

Essa tendência de alteração da matriz energética mundial está
induzindo as grandes empresas capitalistas multinacionais a viabilizarem
alternativas energéticas mais rentáveis em curto e médio prazo, em
particular relacionadas com os agrocombustíveis como o etanol e os óleos
vegetais.

Está-se, portanto, em presença de uma disputa mundial pela dominação
das fontes de energia a partir da biomassa, em especial pelos territórios
com recursos naturais mais adequados para a produção da matéria prima
necessária.

5. Monopolização da oferta da energia da biomassa

As fontes de energia a partir da biomassa se inserem no movimento
geral e histórico de monopolização das fontes de energia não renováveis
pelos grandes capitais. Na atual conjuntura é o etanol o principal produto,
mas tudo leva a crer que os óleos vegetais seguirão o mesmo curso. Isso se
deve ao fato de que o etanol e os óleos vegetais tornar-se-ão uma
importante fonte de agrocombustível para consumo mundial, tendo já se
transformado num grande negócio de caráter multinacional.

O BID diz que o Brasil tem 120 milhões de hectares disponíveis para o
plantio de matérias-primas para os agrocombustíveis, e os grupos de pressão
de Europa estão falando de quase 400 milhões de hectares que estariam
disponíveis para plantações com destino a agrocombustíveis em 15 países
africanos. Está-se falando de uma expropriação de territórios numa escala
sem precedentes.[xiv] Há a hipótese, segundo especialista alemão[xv], de
que o Brasil tem o potencial de abastecer 40% do combustível mundial
proveniente da biomassa.[xvi]

O Brasil tem uma posição privilegiada nessa estratégia mundial devido
ao clima favorável com cerca de 200 milhões de hás terras potencialmente
disponíveis, com disponibilidade de força-de-trabalho abundante e barata.
Além de conhecimento e experiência na extração do etanol da cana-de-açúcar.
No entanto, essas pretensões das megaempresas e dos governos de diversos
paises industrializados sobre o território brasileiro, sobre as supostas
áreas passíveis de serem ocupadas com culturas que forneçam matérias primas
para a produção de agrocombustíveis, nega a presença nesses territórios de
populações originárias, de camponeses, de vilas e áreas de proteção
ambiental, entre outros elementos. Supõe, como o fez na ocupação européia
do continente americano no século XVI, que há no Brasil um território
vazio, de gentes e de biodiversidade, passível de ser explorado, agora pelo
capital monopolista das megaempresas multinacionais.

- Para abastecer 5% do mercado mundial de etanol combustível, o Brasil
precisará aumentar a sua produção em seis vezes, atingindo 100 bilhões
de litros. O dobro disso seria necessário para substituir 10% do
consumo mundial de gasolina.
- Conforme a CONAB (2007)[xvii] a área ocupada com cana-de-açúcar no
Brasil na safra 2007/2008 é de 6,6 milhões de hectares, superior em
7,40 % à safra anterior, e assim distribuída: 82,49% nas regiões
Centro-Sul e 17,51 % nas regiões N e NE. A cana vem crescendo
basicamente nas áreas anteriormente ocupadas com pastagens.
- A produção nacional estimada de álcool para a safra 2006/2007 será de
20,01 bilhões de litros, superior em 14,54% (2,54 bilhões de litros) à
da safra anterior. Desse total a região Centro-Sul participa com
91,20% (18,25 bilhões de litros) e a Norte e Nordeste com 8,80% (1,76
bilhões de litros).
- Dos 20,01 bilhões de litros de álcool, 46,73% (9,35 bilhões de litros)
serão de anidro; 53,11% (10,63 bilhões de litros) de hidratado e 0,16%
(32,08 milhões de litros) de neutro, cf. CONAB (op.cit.).
- A produção total estimada de cana-de-açúcar no Brasil para a safra
2007/2008 é de 528 milhões de ton. Desse total, 88,67% destina-se à
indústria sucroalcooleira, e o restante para a fabricação de cachaça,
alimentação animal, sementes, fabricação de rapadura, açúcar mascavo e
outros fins.
- Do total de cana-de-açúcar (468,15 milhões de ton.) que estará sendo
esmagada em 2007 pelo setor sucroalcooleiro, São Paulo esmagará 59,41%
(278,11 milhões de ton.); o Paraná 8,97% (42,00 milhões de ton.);
Minas Gerais 7,85% (36,74 milhões de ton.); Alagoas 5,16% (24,14
milhões de ton.); Goiás 4,24% (19,85 milhões de ton.) e Pernambuco
3,50% (16,39 milhões de ton.) (cf. CONAB, op.cit.).
- Supõe-se que em cinco anos a área com cana-de-açúcar deverá atingir
10,3 milhões de hectares com produção prevista de 728 milhões de
toneladas. Dessa matéria-prima sairão 38 milhões de toneladas de
açúcar e 38 bilhões de litros de álcool, variando essa percentagem
entre açúcar e álcool em função das demandas futuras.

Numa estimava para um futuro de médio prazo a indústria
sucroalcooleira tem a pretensão de atingir no país a marca de 110 bilhões
de litros de etanol anuais. Nessa perspectiva, se mantido os atuais níveis
médios de produtividade da cana-de-açúcar e os de rendimentos na fabricação
do etanol, os canaviais teriam que ocupar 28 milhões de hectares, próximo à
metade dos cerca de 60 milhões que perfazem toda a área usada hoje pela
agricultura nacional.

As áreas de expansão dos plantios de cana-de-açúcar estão localizadas
nos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, sudoeste
de Minas Gerais, Goiás, Tocantins, sul do Maranhão, sudoeste do Piauí e
oeste da Bahia.

O Estado de São Paulo detém 58,52% da produção de cana-de-açúcar do
país, com 3,5 milhões de has plantados em 2007 (52,1% da área total de cana
no país), e tem como expectativa ampliar mais 1,7 milhão de hectares do
produto nos próximos cinco anos, somando uma área total de 5,2 milhões de
hectares. Mas, o preço das terras poderá transferir essa produção para
Minas Gerais.

O Brasil vai construir, em média, duas a 3 usinas de álcool e açúcar
por mês até 2013. Hoje com 336 unidades, deve chegar a 409 (ou 598, com os
projetos em consultas) até o final da safra 2012/2013. Fora as 73 usinas
confirmadas, há hoje no Brasil 189 consultas em andamento, tanto para
construção como para ampliação de unidades.

As regiões de Ribeirão Preto e Araçatuba no interior de São Paulo se
tornaram área de visitação obrigatória para os interessados na fabricação
do álcool. Somente o presidente da Usina Moema, Maurílio Biagi Filho,
recebeu, no seu escritório de Ribeirão Preto, vários grupos de executivos,
autoridades governamentais e empresários de mais de 20 paises nos últimos
16 meses com um interesse em comum: o álcool. Originários de países da
América Central (Cuba, inclusive), Venezuela --- com um grupo de usineiros
e quatro diretores da estatal de petróleo (PDVSA), Colômbia, Peru,
Equador, Bolívia, México, Estados Unidos, China, Coréia do Sul, Japão,
Tailândia, Índia, Austrália, Alemanha, França, Suécia, Holanda e África do
Sul.[xviii]

O grupo Odebrecht, líder da construção e petroquímica na América
Latina, está disposto a investir R$ 5 bilhões na produção de etanol nos
próximos oito anos. Sua meta é tornar-se líder do setor num prazo de dez
anos, quando terá capacidade de moagem de 30 bilhões a 40 bilhões de
toneladas de cana.[xix]

A perspectiva é de que o etanol combustível brasileiro seja negociado
como "commodity" na próxima safra. A pretensão de certificação poderá
tornar-se possível devido ao projeto "Programa de Qualidade Triplo A -
Etanol" da empresa de pesquisa brasileira Triplo A - Normas. É um programa
que está filiado ao "FoodPlus/Eurepgap" --- empresa da União Européia que
desenvolve protocolos de qualidade para as cadeias produtivas do
agronegócio.[xx]

A Case IH comemorou a produção de sua 1000 colheitadeira de cana no
Brasil. "Não temos limite de capacidade, uma vez que essa máquina tem
índice de nacionalização de 92% e os nossos fornecedores estão bem
preparados", declarou Valentino Rizzioli, presidente da CNH Latin America.
Segundo Isomar Marticher, diretor comercial da CNH para o Brasil e
Argentina, a produção em 2007 será de 550 unidades, ante 265 unidades em
2006. Para 2008, ele espera produzir 40% mais. "Produziremos em 2007 e 2008
mais do que nos últimos dez anos". [xxi]

Essa abertura indiscriminada para a produção de etanol combustível é
que torna o Brasil um território global em disputa pelas grandes potenciais
mundiais e suas megaempresas multinacionais. A presença do capital
estrangeiro é elevada tanto para a aquisição de terras como de usinas
sucroalcooleiras (ver adiante em Impactos, capítulo 7).

6. Etanol a partir da lignocelulose

O processo de fabricação do etanol celulósico consiste na extração do
etanol de toda forma de resíduo vegetal (lignocelulose), partes das árvores
e os resíduos agrícolas. O EUA prevê, em médio prazo, talvez até 2030, a
conversão anual de 1,3 bilhões de toneladas de biomassa seca em 227 bilhões
de litros de etanol, o equivalente a 30% do seu consumo de combustíveis,
tudo isto supostamente com pequeno impacto na produção de alimentos ou de
madeira.

O Departamento de Energia dos Estados Unidos irá investir US$ 385
milhões em seis biorefinarias de etanol celulósico. O valor será aplicado
até 2010. Os seis projetos vão produzir cerca de 480 milhões de litros de
etanol celulósico por ano, além de outros subprodutos como hidrogênio,
amônia e metanol. Alguns projetos também irão gerar bioeletricidade. Esse
investimento faz parte do plano de tornar o etanol celulósico competitivo
em 2012.

A hipótese é se combinar usinas extratoras de etanol celulósico com
aquelas de diesel vegetal, para aproveitar as folhas, caules, bagaços e
demais resíduos agrícolas.

O etanol celulósico, segundo o governo do EUA, deixaria para trás o
debate "combustível versus comida", uma vez que apenas resíduos agrícolas e
florestais seriam empregados em sua produção. Sua eficiência na redução de
gases de efeito estufa (GEE) é maior que o etanol do milho. Enquanto um
litro de etanol de milho reduz as emissões de GEE em apenas 18%, o etanol
celulósico propicia um corte nas emissões de até 88%.

No Brasil já estudos para a produção de etanol de origem
lignocelulósica. Há interesses e investimentos em pesquisa a partir de
organismos governamentais e universidades públicas até grandes empresas de
pesquisa constituídas pelas megaempresas nacionais e de capital
estrangeiro.

Conforme Gonçalves (2007)[xxii] o etanol celulósico estará sendo
vendido no Brasil no máximo 10 anos. Se alguns resultados mais recentes de
conversão enzimática se confirmarem, sendo aplicados em escala maior, a
previsão pode cair para 5 ou 6 anos. O principal obstáculo hoje é a
produção e a aplicação de enzimas em larga escala, tendo o processo baseado
na hidrólise enzimática do bagaço de cana.

7. Impactos econômicos, sociais e ambientais devido à expansão da oferta de etanol

Impactos econômicos: concentração e centralização da riqueza

< Preços da terra: do início de 2002 a agosto de 2004, as terras para
grãos subiram 244% em Presidente Prudente (SP), por exemplo, mas, com
a queda das "commodities", esses preços recuaram 29% daquela época até
fevereiro de 2007, conforme dados do Instituto FNP[xxiii]. A área de
pastagem, que já havia perdido espaço para a soja até 2004, agora
perde para a cana. A valorização nos últimos cinco anos foi de 66%.
< Táticas de produção: dos 3,67 milhões de hectares de cana-de-açúcar
cultivados em São Paulo (safra 2006/2007), um milhão pertence às
próprias usinas. Outro um milhão é de fundos de produtores agrícolas
(pessoas físicas) e 1,67 milhão refere-se às parcerias e ou
arrendamentos (relação entre fornecedores de cana e usinas).[xxiv]

- Renda da terra: a pressão pela aquisição de terras aliada à expansão
das monoculturas inflaciona os preços das terras e a renda paga pelos
arrendamentos. Há dois anos, pagavam de 10 a 15 toneladas de cana por
hectare quando arrendavam terras na região de Araçatuba (São Paulo).
Hoje, não encontram mais terra para arrendar com valores inferiores a
20 toneladas. Em Mato Grosso do Sul, o arrendamento já se dá na faixa
de 30 a 35 toneladas por alqueire.[xxv]
< Expansão da fronteira de cana: a expansão da área plantada com cana
em São Paulo, com a consequente valorização do preço das terras,
pressiona as demais lavouras e áreas de pastagens para novas
fronteiras. E Minas Gerais será o caminho preferido, conforme
avaliação da Unica. O Estado de Minas Gerais, que na safra 2006/2007
produziu 33,56 milhões de toneladas de cana, já tem estimativa (CONAB,
op.cit.) de produzir na safra 2007/2008 um estimado de 40,96 milhões
de ton., ou seja um aumento previsto de 20,10 %.
- Se essa tendência se mantiver, o Estado de Minas Gerais deverá
produzir em 2011/12 cerca de 80 milhões de ton. o que significará
cerca de 1 milhão de hectares plantadas com cana-de-açúcar. Na safra
2007/2008 foi plantado 490 mil hás com cana.
- A produção de cana também avança para os Estados de Mato Grosso do
Sul, Mato Grosso, Goiás e Paraná. Juntos, esses Estados, que estimam
colher na safra 2007/2008 124 milhões de ton., poderão alcançar 253
milhões em 2012/13. Ou seja, vão acrescentar 129 milhões de toneladas
em relação à produção atual, o que equivaleria a uma ampliação do
plantio de 1,63 milhão de hectares nesses quatro Estados.
- Novas usinas e capital estrangeiro: para dar conta da moagem dessa
cana, o setor deve investir US$ 17 bilhões e acrescentar no curto
prazo 76 novas usinas às 336 já existentes.[xxvi]
- Levantamento da empresa de consultoria KPMG mostra que foram oito as
aquisições de usinas pelas megaempresas em 2005 e nove no ano passado,
e a consultoria prevê que o número deve chegar a 12 em 2007. Desde
2005 houve 29 aquisições por novos proprietários de usinas
brasileiras, das quais 13 passaram às mãos de grupos
internacionais."[xxvii]
- A forte demanda mundial pelo álcool está trazendo o capital
estrangeiro, que já detém o controle de 18 usinas, com capacidade de
moagem de 28 milhões de toneladas por safra. Esse volume representa
5,9% da safra nacional 2006/2007 (475 milhões de ton. de cana). Com
esse apetite dos investidores externos, "daqui a cinco anos 9,6% da
moagem estará nas mãos de estrangeiros, o que vai corresponder ao
processamento de 70 milhões de toneladas", diz Antônio de Pádua
Rodrigues, diretor técnico da Unica (União da Indústria de Cana-de-
Açúcar). Eles (capital estrangeiro - HMC) vão ter 27 unidades somente
no Estado de São Paulo.[xxviii]
- Mas, há outras versões e informações sobre o tema. Lídia Moraes[xxix]
adverte que "(...) todos estão preocupados com os EUA, mas o país que
mais compra usinas no Estado de São Paulo é o Japão. São cerca de 40
usinas. Contando que o Brasil tem 377 usinas operacionais, este é um
dado perigoso".

Impactos econômicos na alimentação

O enorme volume de milho requerido pelo setor de etanol está causando
ondas de choque em todo o sistema de alimentação nos EUA (o EUA responde
por cerca de 40% da produção mundial de milho, e por mais da metade das
exportações totais). No Brasil, a CONAB (julho 2007) admite que milho, soja
e trigo vêm perdendo áreas nos Estados de MT, MG, SP e no PR, com provável
repercussão nos seus preços futuros.[xxx]

- Em março de 2007, no EUA, os preços futuros do milho ultrapassaram a
marca de US$ 4,38 por bushel (27,21 kg.) ante US$ 2,40 em 2006, a qual
foi considerada a maior alta em 10 anos. Os preços do trigo e do arroz
também dispararam para as marcas mais elevadas em 10 anos, porque ao
mesmo tempo em que esses cereais passam a ser mais usados como
substitutos do milho, a área reservada ao seu plantio está caindo
devido à ampliação das plantações de milho pelos agricultores.
- Os preços dos alimentos estão subindo em ritmo preocupante na Europa,
China, Índia e nos Estados Unidos. Neste ano (2007), a inflação dos
alimentos deve ficar em 4% nos EUA, ante 2,5% em 2006. Será a maior
inflação de alimentos em 17 anos. O preço do frango industrializado
subiu 30% em um ano nos EUA. O leite nos EUA deverá subir 14% neste
ano. Na Europa, o preço da manteiga subiu 40%. O trigo está sendo
negociado a preços recordes no mercado futuro. Na China, o porco subiu
20% em 2006 e o índice de preços de alimentos na Índia subiu 11%. No
México, o aumento de 60% no preço das "tortilhas" causou
protestos.[xxxi]
- O governo dos Estados Unidos continua a subsidiar pesadamente os
produtores de milho e os de etanol. Os subsídios diretos à produção de
milho no país atingiram os US$ 8,9 bilhões em 2005. Ainda que esse
total deva cair em 2006 e 2007 devido aos preços elevados do milho, o
sistema vigente de subsídio pode em breve ser soterrado sob a ampla
gama de créditos tributários, concessões de verbas e empréstimos
públicos que fazem parte do projeto de lei de energia aprovado em 2005
e de um projeto de lei da agricultura que tem por objetivo apoiar os
produtores de etanol. O governo federal já oferece aos refinadores de
etanol um credito tributário de 14 centavos de dólar por litro que
produzem, e muitos Estados pagam subsídios adicionais.[xxxii]

O Banco Mundial estimou que, em 2001, 2,7 bilhões de pessoas viviam
com menos de US$ 2 ao dia, no mundo; para elas, aumentos ainda que
moderados nos custos dos cereais básicos poderiam ser devastadores. Encher
o tanque de um veículo utilitário esportivo (95 litros) com etanol puro
requereria mais de 200 quilos de milho, um volume de cereal que contém
calorias suficientes para alimentar uma pessoa por um ano.

"O Instituto Internacional de Políticas de Alimentos estimou que o
preço da cesta básica irá subir de 20 a 33 por cento até o ano 2010, e de
26 a 135 por cento até 2020. O consumo calórico tipicamente declina quando
os preços sobem na razão de 1:2. A cada 1 por cento de aumento no custo dos
alimentos, 16 milhões de pessoas perdem a sua segurança alimentar. Se as
atuais tendências continuarem 1,2 bilhões de pessoas poderiam estar
cronicamente famintos em 2025, ou seja, 600 milhões a mais do que havia
sido previsto anteriormente."[xxxiii]

As possibilidades de deslocamento das áreas atuais com plantio de
cereais no Brasil, devido ao aumento relativo dos preços das terras, ainda
são bastante favoráveis devido às grades extensões de terras agricultáveis
passíveis de serem postas em produção, inclusive as áreas com pastagens
para criação extensiva de bovinos. No entanto, tudo leva a crer que haverá
redução relativa de produção de alimentos. Já há uma tendência no aumento
das importações de alimentos no país.

Ambientais

A expansão do cultivo da cana-de-açúcar tende a consolidar o modelo
econômico dominante na agricultura brasileira que é a afirmação das grandes
áreas de monoculturas (como na soja, algodão, milho e outros cereais) e a
artificialização da agricultura, esta a através dos cultivos transgênicos,
fertilizantes de origem industrial, uso intensivo de agrotóxicos e de
herbicidas, da automação, da mecanização pesada e da aviação agrícola. Esse
modelo é ambientalmente insustentável e favorece a degradação ambiental.

- Um dos gases responsáveis pelo efeito estufa, o óxido nitroso (N2O),
tem como principal fonte de emissão a agricultura, que é 310 vezes
mais poluente[xxxiv] que o dióxido de carbono (CO2), o mais comum na
atmosfera.[xxxv]
- Contaminação das águas e do solo pelos agrotóxicos e os herbicidas,
assim como saturação dos solos pelos fertilizantes nitrogenados.
- Compactação dos solos pela motomecanização pesada.
- Os dados do último levantamento da Conab (10º Levantamento da Safra
2007/08, maio 2007) para a cana-de-açúcar apontam a expansão da
cultura na comparação da atual safra ante 2006/07: em Minas Gerais
houve aumento de 16,8% na área plantada; em Mato Grosso do Sul, 18%; e
no Paraná, 25%.[xxxvi]
- Pressão da área plantada com cana-de-açúcar desloca outros cultivos e
criações para o Centro-Oeste do país, criando nova fonte de pressão
sobre novas terras a Amazônia.

Impactos Sociais

Se no cultivo da soja a demanda de força de trabalho nos cultivos era
reduzida, no cultivo da cana-de-açúcar a tendência dominante é a de
utilização de grades contingentes de força de trabalho assalariada
temporária. Essa demanda de força de trabalho se, por um lado, redistribui
salários para uma grande massa de trabalhadores desempregados ou em
situação de emprego precário, por outro lado, como é usual nos cultivos da
cana-de-açúcar no Brasil, a superexploração do trabalho e a prática de
trabalho em situação similar às dos escravos se amplia e se consolida.

A expansão das monoculturas, além de degradarem o meio ambiente e
realizarem a ampliação da exploração do trabalho assalariado, destrói os
territórios camponeses provocando o êxodo rural, ampliando mais ainda as
desigualdades sociais no campo e na cidade.

- Exclusão social do campesinato pela concentração das terras,
introdução massiva de arrendamentos de terras e crescimento dos
contratos de integração agroindústrias - camponeses, assim como a
desorganização dos territórios camponeses e de médios produtores com a
monocultura da cana-de-açúcar.
- Deslegitimação da cultura camponesa e dos povos originários pela
presença massiva dos plantios de cana-de-açúcar cercando fisicamente
as comunidades camponesas e indígenas.
- Desemprego: o governo do Estado de São Paulo e a Unica (União das
Indústrias de Cana-de-Açúcar) assinaram um TAC (Termo de Ajustamento
de Conduta) para acabar com as queimadas nas áreas de cana-de-açúcar
até 2017. Segundo o governador de São Paulo, José Serra, o objetivo é
chegar a 2014 com 100% da área mecanizada sem queimadas e com apenas
440 mil hectares de queimadas referentes às áreas não mecanizadas —
aquelas cujo desnível impede o acesso de máquinas.[xxxvii]
- Exploração dos bóias-frias: a partir da década de 1990 - quando se
consolida o processo de tecnificação desta agricultura, pelo uso
intensivo de máquinas colhedeiras de cana, capazes de substituir até
120 trabalhadores, ocorreram vários processos simultâneos: aumento da
precarização das relações de trabalho, existência de alguns casos de
condições análogas à de escravo, aumento abusivo da exploração da
força de trabalho, por meio da produtividade em torno hoje de 12
toneladas de cana cortada por dia, ocorrência de mortes súbitas,
supostamente em função da fadiga e de mortes lentas, simbolizadas por
uma verdadeira legião de mutilados.
- Para um total de dez toneladas de cana, há a necessidade de 9.700
golpes de facão, portanto quase 1.000 golpes por tonelada. A este
cenário podem se acrescentados: o calor excessivo, pois a jornada de
trabalho inicia-se ás 7:00 hs e termina por volta das 17:00 hs; a
fuligem que é aspirada no momento do corte; a má alimentação; a
violência simbólica existente no ambiente laboral, no sentido de
considerar frouxo, fraco, aquele que não consegue atingir a
produtividade (média) exigida, além da ameaça de perder o emprego,
caso isto ocorra. (p.4 e 5). Na década de 1980, a média
(produtividade) exigida era de 5 a 8 toneladas de cana cortada/dia; em
1990, passa para 8 a 9; em 2000 para 10 e em 2004 para 12 a 15
toneladas![xxxviii]
- a imposição das altas taxas de produtividade do trabalho, levando-os,
em alguns casos, à morte, é suportada em virtude deste processo de
introjeção da autodisciplina que os acompanha durante toda a vida.
[xxxix]

7. A avalanche verde imperialista: macroconseqüências

A ofensiva das grandes empresas capitalistas nacionais e
multinacionais para o controle e monopolização da fonte de energia
renovável etanol faz-se como uma avalanche: carrega ou destrói qualquer
barreira que se interponha a ela, seja econômica, política, ideológica ou
institucional.

Essa avalanche é estimulada pelo governo brasileiro que já se
comprometeu com as estratégias das grandes potencias, em particular os EUA,
de facilitar a elas o controle da fonte de energia renovável a partir da
biomassa no Brasil, via a grande inversão de capitais, compra de terras, de
implantação e compra de usinas sucroalcooleiras e de produção de óleo
diesel.

Essa atitude política do governo brasileiro tem ressonância
internacional considerável, mais fortemente em relação com os paises
latinoamericanos. O Brasil, através dos acordos com EUA, tornar-se-ão a
plataforma do imperialismo verde norte-americano para a América Latina, via
acordos entre governos e fusões das empresas Brasil-EUA com outras dos
paises canavieiros do continente.

A questão fundamental, nas relações com os paises latinoamericanos (e
outros, com certeza) está no controle oligopolista pelas megaempresas
multinacionais, via suas experiências no Brasil, das tecnologias recentes
transgênicas tanto para as novas variedades de cana-de-açúcar como para os
novos fermentos.

Essa avalanche do imperialismo verde constrange ou desarticula
qualquer proposta dos governos de reforma agrária; muda e reduz as formas
de controle social sobre o capital , seja pelo enfraquecimento político e
ideológico do Congresso Nacional seja pela despolitização das lutas sociais
populares, estas arrefecidas pelas políticas governamentais compensatórias;
estimula e consagra a monocultura; institui de forma massiva o arrendamento
capitalista de terras; cerca e desarticula economicamente o campesinato e,
em última instância, integra os camponeses ao capital pelos contratos de
produção.

Essa avalanche potencializa o assalariamento rural temporário massivo
e em condições precárias (bóias-frias), amplia a exploração dos
trabalhadores e cria sistemas de controle político e trabalhista para a
perseguição à filiação e luta sindical.

Os apelos e denúncias ambientalistas estarão sendo sufocados política
e economicamente pela altíssima movimentação e alocação de capitais
estrangeiros e pela potencial introdução do etanol celulósico tendo como
fonte de energia a partir de partes das plantas e dos resíduos agrícolas.

Essa nova lógica do capital verde tenta superar o conflito produção
de alimentos versus produção de agrocombustíveis e mascara a apropriação
privada da terra e o controle financeiro das usinas e distribuição dos
combustíveis (álcool e diesel vegetal) pelo capital estrangeiro. Do ponto
de vista político e ideológico o etano celulósico facilita a manipulação da
opinião pública e a cooptação de ONGs próximas ao capital.

A implantação desse imperialismo verde demanda estabilidade social no
país, já em curso pelas empresas multinacionais e pelo governo. O que
significa o controle social dos movimentos sociais populares, sindicatos de
trabalhadores, pastorais e ong’s críticas, seja através da cooptação e ou
da repressão; o livre acesso às terras devolutas e dos latifúndios sem
ameaças de reforma agrária e ocupações de terras; a flexibilidade das
relações de trabalho assalariado no campo, seja via a legislação seja via a
terceirização sem controle político e social, e a redução da importância
das medidas governamentais de fiscalização da predação do meio ambiente.

ANEXO

MATRIZ ENERGÉTICA BRASILEIRA. DADOS PRELIMINARES DE 2006
Fonte: MME; Resenha Energética Brasileira (março 2007)

OFERTA INTERNA DE ENERGIA - OIE (mil tep)
FONTES 2005 2006 06/05 %
NÃO RENOVÁVEL 121.349 124.321 2,4
PETRÓLEO 84.553 85.485
GÁS NATURAL 20.526 21.721 5,8
CARVÃO MINERAL 13.721 13.464 -1,9
URÂNIO (U3O8) 2.549 3.650 43,2
RENOVÁVEL 97.314 101.434 4,2
ENERGIA HIDRÁULICA 32.379 33.452 3,3
LENHA 28.468 28.058 -1,4
PRODUTOS DA 30.147 33.043 9,6
CANA-DE-AÇÚCAR
OUTRAS RENOVÁVEIS 6.320 6.880 8,9
TOTAL 218.663 225.754 3,2
% PRODUTO INTERNO BRUTO - 3,7
PIB
ESTRUTURA % DA OFERTA INTERNA DE ENERGIA
FONTES 2005 2006 06/05 %
NÃO RENOVÁVEL 55,5 55,1
PETRÓLEO 38,7 37,9 -2,1
GÁS NATURAL 9,4 9,6 2,5
CARVÃO MINERAL 6,3 6,0 -5,0
URÂNIO (U3O8) 1,2 1,6 38,7
RENOVÁVEL 44,5 44,9 1,0
ENERGIA HIDRÁULICA 14,8 14,8 0,1
LENHA 13,0 12,4 -4,5
PRODUTOS DA 13,8 14,6 6,2
CANA-DE-AÇÚCAR
OUTRAS RENOVÁVEIS 2,9 3,0 5,4
TOTAL 100,0 100,0 0,0

NOTAS


[i] Este texto corresponde a uma nova versão, revista e ampliada, do meu texto denominado "Avalanche do Imperialismo Verde 2". Curitiba, mimeo 5 p. 3 de maio de 2007.

[ii] As crises do petróleo. Introdução. In História, por Voltaire
Schilling. http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/petroleo.htm.

[iii] São os seguintes os 30 países membros da Organisation de Coopération et de Développement Économiques - OCDE: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Islândia, Itália, Japão, Luxemburgo, México, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Eslovaca, República Tcheca, Suíça, Suécia e Turquia. Além desses países, também integra a OCDE a União Européia.

[iv] GRAIN. ¡No a la fiebre de los agrocombustibles! Junio de 2006,
http://www.grain.org/go/agrocombustibles.

[v] In Mercado Ético. Assimetria entre empresas e consumidores define setor elétrico. http://mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=55

[vi] Henrique Cortez. O século do hidronegócio. Jornal do Brasil,
26/07/2005. In http://www.mabnacional.org.br/noticias/270705_hidronegocio.htm.

[vii] Fonte: Balanço mostra mais energia da cana em 2006. Empresa de
Pesquisa Energética (EPE ). 07/04/2007

[viii] TEP: tonelada equivalente petróleo. Poder calorífico do petróleo =
10.000 kcal/kg ou 1 Tep; poder calorífico da lenha = 3.100 kcal/kg ou 0,310 tep.

[ix] Soraia Abreu Pedrozo. Brasil mantém liderança em energia limpa. BM&F Brasil, 28 de junho de 2007, 11h17 (site BM7F).

[x] Entrevista sobre PAC, obras de infraestrutura do governo, etc. com
Luis Fernando Nóvoa Garzón, da Unicamp. Páginas da Unisinos, 25 jun 07.

[xi] Mistura de anidro na gasolina passa para 25% em 1º de julho,
(13/06/2007) in http://www.portalunica.com.br/portalunica/?Secao=ÚNICA.
[xii]MTBE: éter metil-butil terciário, molécula criada a partir da mistura
do isobutileno e metanol e que potencializa a octanagem. É um aditivo
oxigenado que melhora a combustão no motor. É cancerígeno. Contamina as águas e solos e pode ser persistente nas águas subterrâneas.

[xiii] C. Ford Runge e Benjamin Senauer. A bolha do etanol. Revista Foreign
Affairs

[xiv] GRAIN. ¡No a la fiebre de los agrocombustibles! Junio de 2006,
http://www.grain.org/go/agrocombustibles.

[xv] Ernst Schrimpff, Presidente da Associação Federal Alemã de Óleos
Vegetais.

[xvi] Schrimpff, Ernst (2006). A experiência européia de combustíveis
renováveis, com destaque aos óleos vegetais. In Werner Fuchs (ed.). Colha óleos vegetais. Curitiba, Edição do Autor, 120 p.; p. 18.

[xvii] CONAB (julho 2007). Safra cana 2007/2008 Estimativa. 1º
Levantamento, maio 2007.

[xviii] Angela Fernanda Belfort. Álcool : o Brasil no foco mundial. LQES
NEWS. (esta matéria foi primeiramente veiculada no Jornal do Commércio (Recife, Brasil), em 20 de agosto de 2006, dentro da rubrica JC Economia).

[xix] CEPAT. Conjuntura da Semana. Uma leitura das Notícias do Dia do IHU de 27 de junho a 03 de julho de 2007.

[xx] Márcio Rodrigues. Projeto brasileiro pode garantir certificação do
álcool na próxima safra, in Folha ON LINE 04/06/2007 - 09h00

[xxi] Gazeta Mercantil. Case acelera produção de colheitadeiras. Busca
Fácil, 19/4/2007 10:03:00.

[xxii] Adilson Roberto Gonçalves (2007). Entrevista por e-mail a Terra
Magazine, in Daniel Bramatti. Etanol celulósico chega em até 10 anos. Terra
Economia, 14 de março de 2007, 09h31.

[xxiii] In AgraFNP, ver http://www.fnp.com.br/terras/index.php.

[xxiv] Mauro Zafalon. Boom do álcool dobra valor de terra e usina, in FSP
18-03-07

[xxv] Mauro Zafalon. Minas Gerais assume segundo lugar na cana. FSP.

[xxvi] Mauro Zafalon. Minas Gerais assume segundo lugar na cana. FSP.

[xxvii]Cibelle Bouças. Número de aquisições de usinas deve bater recorde
esse ano. Jornal Valor, quinta-feira, 31 de maio de 2007 16:22.

[xxviii] Mauro Zafalon. Boom do álcool dobra valor de terra e usina, in FSP
18-03-07

[xxix] Lídia Maria Pepe Moraes (UNB) (2007), entrevista a Daniel Bramatti,
in Etanol celulósico chega em 10 anos. Terra Magazine, 14 de março de 2007, 09h31. http://terramagazine.terra.com.br/interna.

[xxx] Fabíola Gomes, in Etanol no lugar de alimentos. São Paulo, Jornal O
Estado de São Paulo, 4 julho 2007.

[xxxi]Patrícia Campos Mello. Os alimentos vão subir de preço por causa do
etanol in O Estado de São Paulo, 01 julho 07.

[xxxii] C. Ford Runge e Benjamin Senauer A bolha do etanol. Revista
Foreign Affairs.

[xxxiii]Runge, C. Ford e Senauer, Benjamin (2007). Como os biocombustíveis podem matar os pobres de fome, Foreign Affairs, May/june. Citado por Eric Holt-Giménez (2007).
Biocombustíveis: Os Cinco Mitos da Transição dos Agro-combustíveis. Food First/Institute for Food and Development Policy. Tradução do inglês por Ana Amorim.

[xxxiv] Poder destrutivo dos gases de efeito estufa - Existe um conceito
conhecido como Potencial de dano global (ou Global Warming Potential -
GWP), que se refere ao poder destrutivo das moléculas de cada gás de efeito estufa. A molécula de dióxido de carbono equivale a 1 neste índice. O metano (CH4) tem um potencial 21 vezes maior que o CO2. O óxido nitroso (N2O) tem um potencial de dano 310 vezes maior que o CO2. O hexafluoreto de enxofre (SF6) tem um GWP 23.900 vezes maior que o CO2. (Ver. Glossário de termos técnicos para entender o Protocolo de Kyoto. Ministério de Minas e Energia - MME, CONPET, in
http://www.conpet.gov.br/kyoto/glossario.php.)

[xxxv] Soraia Abreu Pedrozo. Agricultura libera gases mais poluentes. BM&F Brasil . 16 de abril de 2007, 14h55 .

[xxxvi] Fabíola Gomes, in Etanol no lugar de alimentos. São Paulo, Jornal O
Estado de São Paulo, 4 julho 2007.

[xxxvii] Márcio Rodrigues. Usinas terão até 2017 para colher cana sem
queimadas em São Paulo.Folha ON LINE. 04/06/2007 - 18h19

[xxxviii] Maria Aparecida de Moraes Silva (2006). Mortes dos "severinos"
nos canaviais paulistas, in Conflitos no campo em 2005. Goiânia, CPT,
Gráfica e Editora América, p.162-166.

[xxxix] Maria Aparecida de Moraes Silva e Rodrigo Constante Martins. A
modernidade da economia Junker à moda contemporânea do rural paulista: a degradação social do trabalho e da natureza (Uma versão preliminar deste texto foi publicada no Dossiê Dimensões da Questão Agrária no Brasil da revista Lutas e Resistências (Londrina, n.1, p.91-106, set.2006).


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