Biocombustíveis são maior ameaça à diversidade na Terra

Lester Brown
segunda-feira 16 de julho de 2007 por LRAN

"Biocombustíveis são maior ameaça à diversidade na Terra"
Pioneiro no movimento ambientalista prevê "disputa épica" entre os 800 milhões de donos de carros e os 2 bilhões mais pobres do planeta com a produção de álcool a partir de grãos

ENTREVISTA/LESTER BROWN

A AMBIÇÃO BRASILEIRA de criar um mercado mundial para o álcool em parceria com os EUA encontrou um opositor de peso em um dos pioneiros do movimento ambientalista: o americano Lester Brown, 72, com influência suficiente para ser ouvido no Congresso dos EUA, no Fórum Econômico Mundial ou na Academia de Ciências da China. Ele diz que o uso do milho por usinas de álcool desencadeou uma disputa de proporções épicas entre os 800 milhões de donos de carros e os 2 bilhões de pessoas mais pobres do planeta.

CLÁUDIA TREVISAN DA REPORTAGEM LOCAL

O aumento da demanda por milho para fabricação de álcool tem levado à inflação de alimentos em todo o mundo, diz Brown, com efeitos perversos para a população mais pobre.
A posição é semelhante à do ditador cubano Fidel Castro e do presidente venezuelano, Hugo Chávez, que vêem nos biocombustíveis uma ameaça à oferta de alimentos no mundo.

A tecnologia brasileira de fabricação de álcool a partir da cana-de-açúcar não escapa das críticas do ambientalista. "Se eu tivesse que identificar a mais importante ameaça à diversidade biológica da Terra, ela seria a demanda crescente por biocombustíveis", disse Brown em entrevista por telefone.
O ambientalista afirma que a Terra não terá como acomodar milhões de chineses com o mesmo padrão de consumo dos norte- americanos. Se crescer a 8% ao ano, afirma, a China terá em 2031 renda per capita igual à dos Estados Unidos hoje.

Caso os chineses do futuro consumam como os americanos de hoje, o país asiático terá 1,1 bilhão de carros em 2031, mais que os 800 milhões existentes hoje no mundo. Para alimentar sua frota e seu crescimento, precisará de 99 milhões de barris de petróleo/dia, mais que a produção mundial atual, de 85 milhões de barris/dia. FOLHA - O sr. tem uma posição distinta da maioria dos ambientalistas em relação ao uso do álcool como combustível. Por quê?

LESTER BROWN - Muitos ambientalistas estão mudando de posição em relação a essa questão. O cenário de um ano atrás não é mais o mesmo hoje, pelo menos não nos Estados Unidos. Se utilizarmos quantidades crescentes de grãos para dar combustível aos carros, isso levará à alta no preço de alimentos e será uma ameaça à população mais pobre do planeta.
Os ambientalistas estão retirando apoio ao álcool e falando em carros híbridos [movidos a gasolina e eletricidade] que podem ser recarregados em uma tomada, vistos cada vez mais como a solução para os Estados Unidos. O Toyota Prius é o carro híbrido mais popular nos Estados Unidos.
Se for agregada a ele uma segunda bateria com tomada, será possível recarregá-la à noite em casa. Com isso, os percursos de curta distância seriam realizados totalmente com eletricidade. Se fizermos isso nos Estados Unidos, poderemos reduzir nosso consumo de petróleo em cerca de 80%.
Se, ao mesmo tempo, investirmos em centenas de usinas eólicas [movidas a vento], agregaríamos energia barata à nossa rede de transmissão, o que nos permitiria ter energia equivalente a um galão de gasolina por US$ 1. Está surgindo uma grande coalização entre companhias de eletricidade, corporações, ambientalistas e governos municipais e estaduais para encorajar a adoção desse caminho.

FOLHA - O sr. fala em um "confronto épico" entre os 800 milhões que têm carros e as 2 bilhões de pessoas mais pobres do mundo, que vêem os preços dos alimentos subirem. Os vencedores desse confronto, pelo menos até agora, parecem ser os 800 milhões de motorizados, considerando os pesados investimentos na produção de álcool.

BROWN - Por enquanto, os 800 milhões têm sido vitoriosos, porque houve enormes investimentos em usinas de álcool nos Estados Unidos. A capacidade de produção em construção é maior que a capacidade de todas as usinas criadas desde o início do programa [de fabricação de álcool], em 1978.

Até o fim do próximo ano, quase 30% da colheita de grãos irá para usinas de álcool, reduzindo a quantidade disponível para exportações. Como o mundo depende fortemente dos Estados Unidos, que é um dos maiores exportadores de milho e de trigo, isso vai criar problemas graves aos importadores de grãos, como Japão, Índia, Egito, Nigéria, México.

FOLHA - A recente inflação nos preços de alimentos no mundo pode ser atribuída ao álcool?

BROWN - Há outros fatores, como falta de água, mas a causa principal da inflação nos últimos seis meses tem sido o aumento no preço de grãos. Isso ocorre em todos os lugares do mundo: no preço do porco na China, da tortilha no México, da cerveja na Alemanha.

FOLHA - Com tantos investimentos no setor, é possível uma reversão no uso de álcool nos Estados Unidos?

BROWN - Ninguém sabe. O que começamos a ver é uma reação dos consumidores. Estamos em uma situação inusual, na qual subsidiamos a alta do preço de alimentos. Como contribuintes, estamos dando os subsídios que vão para a produção do álcool. Perdemos nas duas pontas, como contribuintes e como consumidores.

FOLHA - Além disso, a produção de álcool com milho é pouco eficiente.

BROWN - Sim, especialmente se comparado ao álcool produzido por cana-de-açúcar. Para cada 1 unidade de energia usada na produção de álcool a partir do milho, é obtida 1,3 unidade de energia, o que dá um ganho de 30%. No caso da cana-de-açúcar, para cada 1 unidade de energia utilizada, são obtidas 8 unidades de energia.

FOLHA - O álcool produzido a partir da cana-de-açúcar é uma opção viável aos combustíveis fósseis?

BROWN - Poderia ser nos países que podem plantar cana-de-açúcar. Nós não podemos plantar muito, porque estamos no hemisfério Norte. Mas, se países que já são grandes produtores, como o Brasil, tentarem satisfazer não apenas seu mercado interno mas também exportar, haverá desmatamento, pela expansão da produção de cana-de-açúcar ou porque a expansão da cana toma espaço de outras culturas, como soja [que ocupariam outras áreas].

A preocupação que está emergindo na comunidade internacional de ambientalistas em relação aos biocombustíveis é o efeito que eles estão tendo no desmatamento na Amazônia brasileira e no sudeste asiático, onde Malásia e Indonésia são os principais produtores de óleo de palmeira, que é usado como biodiesel.

Se eu tivesse que identificar a mais importante ameaça à diversidade biológica da Terra, ela seria a demanda crescente por biocombustíveis -álcool no caso do Brasil ou biodiesel no caso do sudeste asiático.
Eu não diria que o Brasil deve interromper sua produção de álcool. A minha sugestão é que o Brasil comece a desenvolver outras fontes de energia, incluindo a solar e a eólica, em que tem grande potencial.

FOLHA - A China acaba de superar os Estados Unidos como o maior emissor de gases de efeito estufa. A Terra é grande o bastante para acomodar os milhões de emergentes consumidores chineses?

BROWN - Eu sempre escutei que os Estados Unidos, apesar de terem apenas 5% da população mundial, consumiam quase 40% dos recursos da Terra. Isso não é mais verdadeiro.

A China hoje consome mais da maioria dos recursos básicos do que os Estados Unidos, com exceção de petróleo. O consumo de carne da China hoje é o dobro do registrado nos Estados Unidos. O de aço é o triplo.
O que acontecerá se a China alcançar os Estados Unidos em consumo per capita? Se o crescimento chinês se reduzir para 8% ao ano, em 2031 a renda per capita da China será a mesma da dos Estados Unidos hoje [com valores ajustados pela Paridade do Poder de Compra].
Se os chineses tivessem o mesmo padrão de consumo dos americanos, em 2031 a população de 1,4 bilhão ou 1,5 bilhão da China consumiria o dobro da atual produção de papel de todo o mundo. Se houver três carros para cada grupo de quatro pessoas, como nos Estados Unidos hoje, a China teria 1,1 bilhão de carros. Em todo o mundo hoje há 800 milhões. O consumo de petróleo seria de 99 milhões de barris ao dia. A produção atual de petróleo é de 85 milhões de barris por dia.

O que a China está nos ensinando é que o modelo econômico ocidental, centrado em combustíveis fósseis, no uso de carros e no desperdício, não vai funcionar para o país. Se não funcionar para a China, não vai funcionar para a Índia, que em 2031 deverá ter uma população maior que a da China. Há 3 bilhões de pessoas nos países em desenvolvimento sonhando o sonho americano.

FOLHA - A questão é essa: todos sonham o sonho americano.

BROWN - Sim, e em uma economia cada vez mais integrada, na qual todos nós dependemos dos mesmos grãos, petróleo e aço, esse modelo também não vai funcionar para os países industrializados. O que temos que fazer é pensar em uma nova economia, com fontes renováveis de energia, que tenha um sistema de transporte diversificado e que reúse e recicle tudo.

FOLHA - Há disposição entre os líderes chineses para mudar o padrão de desenvolvimento do país?

BROWN - Eles publicam quase tudo o que eu escrevo. O primeiro-ministro Wen Jiabao começou a me citar em alguns de seus discursos. As coisas mais estimulantes que aconteceram em energia renovável nos últimos anos aconteceram na China. Até o fim deste ano, 40 milhões de casas terão água aquecida por energia solar, captada por painéis colocados nos telhados das casas, e o número deve quadruplicar até 2020.

FOLHA - É possível para a China mudar o padrão de desenvolvimento e caminhar na direção de fontes renováveis de energia sem sacrificar o crescimento econômico?

BROWN - Se não reestruturarmos a economia mundial, o crescimento econômico será insustentável. Precisamos reestruturar a economia muito mais rapidamente do que a maioria das pessoas imagina.
Os números que mencionei sobre a China como nação consumidora se referem a 2031, quando eles estariam consumindo mais recursos do que o mundo possui.

Se não reestruturarmos a economia no mundo, o progresso econômico provavelmente não se sustentará.


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